domingo, 25 de maio de 2025
Sob as rosas de Erato
segunda-feira, 28 de abril de 2025
Um homem velho
sábado, 5 de abril de 2025
sábado, 27 de julho de 2024
Kit Kat: um doce de gatinha
Não tinha mais do que 5 ou 7 centímetros, mas os olhos, verdes e profundos, já se mostravam cheios de uma curiosidade perpétua, capazes de enxergar até mesmo o que os humanos se recusam a reconhecer que existe. Com o tempo, sabia ler as emoções das pessoas com quem passou a conviver e amar, melhor do que elas mesmas podiam.
Um fato conhecido por aqueles que amam gatos é que os felinos, por sua vez, amam caixas. Por isso, seu primeiro presente, antes mesmo de ganhar um nome, foi uma caixa toda almofadada, decorada com um laço lilás grande e fofo, que envolvia todas as bordas como um abraço. Claro que o reconhecimento desse esconderijo contou com algumas mordidas e arranhões, mas bastou alguns instantes para que a nova ocupante se sentisse a senhora daqueles domínios. Só depois é que fomos entender que isso valia na verdade para a casa toda.
Foi o menino mais novo quem escolheu o nome. Se conectaram intensamente desde o momento em que se conheceram, e já na primeira vez em que a gatinha procurou a sua companhia para dormir em segurança, não pode conter as lágrimas e nem mesmo imaginar um futuro sem ela. Tocavam os narizes como sinal de reconhecimento familiar, e por causa da doçura deste gesto, achou que ela devia ter nome de chocolate, achou que ela deveria se chamar: Kit Kat.
No dejejum, aprendeu a gostar de pedacinhos de melão, que a mãe carinhosamente preparava amassadinhos todas as manhãs e que eram ansiosamente aguardados pela pequena, antes mesmo de partir para o prato principal da ração preferida. Chegava mesmo a se sentar à mesa como os demais ocupantes da casa para aguardar o preparo da fruta costumeira.
Era a companheirinha de todas as horas. Quando o menino mais novo passava muito tempo fazendo seus trabalhos da escola, Kit deitava sobre os materiais para exigir que ele fizesse uma pausa e assim ganhar um colo e quem sabe bastante carinho atrás das orelhas. Mas nunca na barriga, pois a barriga era território proibido.
Quando aprendeu a confiar na família que a abrigava e nutria de amor constante, Kit Kat tornou-se quase inseparável da mãe, retribuindo cada carinho do menino mais novo com um ronronar suave e prolongado, que parecia emergir direto do coração. Se ouvia e reconhecia seu nome – sim, ao contrário do que diz o senso comum, os gatos reconhecem o próprio nome – dava à cauda um lindo formato ondulado que só podia significar profunda felicidade por ser o foco de nossa atenção.
Sentia-se segura com o contato visual e dava lentas piscadinhas para expressar tranquilidade ao estar em nossa companhia. De fato, ela passou a estar sempre presente, a fazer parte de cada decisão tomada, de cada momento de júbilo ou tristeza que enfrentamos, de cada recordação que construímos juntos, em família.
E quando a família decidiu deixar a cidade grande para viver mais perto de sua rede de apoio e fortalecer os laços com seus entes queridos indo residir em uma localidade do interior, é evidente que a Kit Kat tinha o seu lugar na casa e na vida nova.
Com certeza há outros tutores que vão dizer – não sem alguma razão - que, tendo ela sido criada como gata doméstica, não estaria preparada para todas essas novas vivências que se apresentavam, e que o melhor teria sido mantê-la em casa, mesmo que para isso fosse necessário seguir restringindo sua liberdade.
Em resposta a essas pessoas, as convido a uma reflexão: é correto apresentar o mar a um marinheiro nato para, em seguida, proibi-lo de navegar? É correto dar a conhecer a música à bailarina e tirar dela a possibilidade de dançar? Em face de escolha semelhante, não pareceu possível (nem justo) fechar as portas para a realização plena das punções naturais da felina, que finalmente podia conhecer mais do mundo e de si mesma.
Claro que nem tudo foram flores, ou insetos, ou passarinhos instigantes e divertidos. Junto com a liberdade vieram as investidas e as disputas territoriais com os mandachuvas do novo local. Houve até mesmo um episódio em que, ao voltar para casa depois de um dia de caçada, a família percebeu em seu pescoço uma coleira diferente da que comumente usava, que foi logo descartada. Ainda que o ocorrido acendesse um sinal de alerta, nunca houve medo de fuga, pois o único laço real que prende todo e qualquer ser vivo é o amor e, por isso, não importa o quão longe suas aventuras a levassem, ela sempre soube para onde voltar.
O tempo avançou como se perseguisse uma presa e quem olhasse a grama alta com desatenção, já não era capaz de dissociar a felina do habitat que dominava. Vez ou outra se deixava perceber quando saltava para surpreender seus alvos ou para retornar à segurança de casa, sempre com um miado que parecia perguntar quem estaria presente para recebê-la e compartilhar as alegrias de suas aventuras. Não ouve outro tempo em que parecesse tão genuinamente feliz.
E foi cercada de todo amor do mundo que continuou crescendo. Exercitando a curiosidade a cada abrir e fechar de porta ou gaveta, explorando cada segredo escondido nas frestas do dia a dia. No entanto, ela mesma guardava um segredo que, por mais conhecêssemos os seus gestos, sua personalidade, ela nunca seria capaz de nos contar. E tanto o menino mais novo quanto a mulher mais velha jamais seriam capazes de supor.
Quem olha pela janela em um fim de tarde de primavera, admira a beleza do céu multicolor também porque sabe que aquele momento passa. E mesmo que o seu colorido intenso e vivo pareça, por um instante, preencher e dar significado a tudo o que existe, também ele se despede lentamente ao cair da noite, deixando a certeza de que, ainda que presenciemos ainda dezenas de outros pores do Sol, nenhum outro será como aquele. Aprendemos da forma mais difícil que isso vale também para quando somos obrigados a nos despedir do nosso “floquinho de neve” que tanto e por tanto tempo amamos.
Sendo Kit Kat tão ativa e vibrante como era, o menor sinal de abatimento se tornava muito evidente. A família começou a notar que, por dias, já não brincava como antes, já não caçava como antes e até se recusava a se alimentar. Cresceu então uma preocupação em nosso coração e não tivemos escolha senão buscar a ajuda de um especialista.
Os exames mostraram então que, além de tudo o que já sabíamos, havia algo que tornava Kit Kat ainda mais especial: aquela anjinho de quatro patas veio ao mundo com apenas um rim. Sinceramente não tenho conhecimento do quão comum é essa condição entre gatos mas imagino que o impacto no tempo e qualidade de vida daqueles que tem de conviver com ela seja significativo.
Claro que imediatamente seguimos as recomendações médicas e mudamos para uma ração específica para felinos pacientes renais (que tivemos que trocar duas vezes até encontrar marca e sabor que fossem do agrado da pequena). Ainda assim, foi necessário complementar sua alimentação com doses de soro diárias para hidratação e remédios.
Não há um único dia, desde então, que a lembrança da gatinha mais amorosa do mundo não se faça presente. Cada cantinho da casa parece guardar o cheiro e uma recordação dela. O melão na mesa do café, pelinhos esparsos esvoaçando pelos lugares mais inusitados, um brinquedo espalhado que parece estar esperando a hora dela voltar, tudo serve para dar à vida em um certo estado de suspensão involuntária, onde a única coisa real é a ausência.
Há os de coração prático que dizem que esse vazio só se afasta com a adoção de um novo pet. Mas o meu coração de poeta, dominado ainda pelo luto, se recusa a pensar na Kit Kat como algo que possa ser substituído, pois não há substituto para o afeto.
O nosso pinguinho de leite não era apenas um gato. Desde a sua chegada, sempre teve o seu lugar como membro da família. A simples presença dela alterou muito mais do que os hábitos da casa, transformou também as dinâmicas das relações, que se tornaram ainda mais amistosas, carinhosas, empáticas. Tudo porque agora os tutores partilhavam entre si o propósito comum de construir também para a Kit Kat o melhor lar que pudesse existir. Com ela, havia histórias que só os três partilhavam, havia risadas que só os três compreendiam. E havia uma compreensão mútua de que todos tinham o seu papel naquela nova estrutura. Onde à parte felina competia ser, muitas vezes, filtro e fluxo do amor que conectava as outras duas partes.
E por falar em esforço, ainda estamos nos esforçando para organizar a vida e os sentimentos sem a presença física da Kit. Realmente espero que este relato possa funcionar como uma mão estendida a todos os leitores que, por ventura, já tenham atravessado experiências semelhantes, para que possam segurar bem firme e saber (e sentir) que não estão sozinhos. O luto é seu. Mas o fardo pode e deve ser compartilhado por todos aqueles que aprenderam a ter um coração mais compassivo, parecido com o do amigo bicho com o qual tiveram o privilégio de conviver.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2024
O fim de ano e o fenômeno migratório da classe média
Pela segunda vez consecutiva, em 37 anos, evitamos o frenezi migratório da classe média que obriga todos os seus representantes a enfrentar sorrindo perrengues injustificáveis em áreas litorâneas, unicamente para se sentir inserido nos imperativos de diversão socialmente estabelecidos e exaustivamente massificados pela indústria do entretenimento para o período de fim de ano.
Trocamos as longas horas de estrada e estresse no trânsito por mais tempo efetivo e de qualidade com a família. Deixamos de nos preocupar com o preço do pedágio e da gasolina para desfrutar sem reservas do valor da convivência sem atropelos, dos raros instantes de livre preenchimento da ociosidade concedidos pelo capitalismo contemporâneo. Nos encontramos com a possibilidade de vida além do fluxo.
Ao mesmo tempo, continuamos a ser bombardeados pelo status quo. Suavizadas por narrativas de "renovação", "lei da atração" e "boas energias", práticas supersticiosas puramente alegóricas invadem o horário nobre dos meios de comunicação para alcançar e se cristalizar no inconsciente coletivo, ensinando os indivíduos a terceirizar a responsabilidade sobre os resultados de suas vidas ao relacionar ganhos financeiros, relacionamentos afetivos, saúde - e tudo o mais que for possível - aos astros, às cores da vestimenta, ao cumprimento de uma gincana de tarefas tão inócuas quanto estapafúrdias para atingir seus objetivos.
Assistimos, do conforto de nossa casa, se repetirem as mesmas reclamações e problemas de infraestrutura de cidades turísticas inchadas. Falta o básico: água, comida, segurança, sossego. São centenas de individualismos conflitantes, competindo pelo mesmo espaço nas faixas de areia e frequências sonoras das praias, rapidamente tornadas impróprias para banho e sanidade mental pelos próprios frequentadores.
Escapamos ainda das mesmas filas quilométricas do trajeto de volta (e das tristes estatísticas de acidentes de trânsito que povoam os noticiários pós-feriado). Inicio este novo ciclo - que não tem nada de místico e marca tão somente o tempo que este pálido ponto azul de forma geoide que habitamos leva para orbitar o Sol - da forma que mais me agrada: escrevendo. E lamentando que ainda haja tantos de nós que nem percebam o quanto estão presos a convenções e comportamentos irrefletidos. E pra não dizer que não falei das flores: um feliz (e livre) ano novo!
sábado, 23 de dezembro de 2023
Nada vai bater tão forte quanto a vida
Tá certo, eu admito que roubei esse título do discurso motivacional que o Rocky Balboa faz ao filho no último filme da franquia (por favor desconsidere os caça-níqueis da trilogia "Creed"). O fato é que, diferente do que pode parecer, não me considero propriamente um fã do trabalho do Sly, mas a metáfora do boxe como um campo de cultivo da persistência e aprimoramento pessoal constante, sempre presente nas sequências que acompanham os altos e baixos da carreira do italian stallion - com o perdão do trocadilho - me acerta em cheio.
Isso porque você não precisa ser um pugilista profissional para enfrentar suas batalhas, ser nocauteado e decidir se vai ficar no chão ou continuar lutando antes da contagem final. Todo e qualquer ser humano e, por definição, consciente, alguma vez na vida já se sentiu diante de situação desafiadora e, de alguma forma, semelhante.
Eu mesmo nunca subi num ringue. Mas batalhei a vida inteira com um corpo que não responde aos estímulos na mesma velocidade do meu intelecto. Tive de entender e aceitar o meu próprio tempo e mobilidade para criar soluções adaptadas às minhas particularidades e, dessa forma, chegar ao topo de cada escadaria que um dia me propus a vencer.
Os meus Dragos e Mr. Ts são muito mais do que punhos erguidos esperando uma brecha na defesa para me acertar. São a construção cotidiana da percepção interna de que, apesar de todas as limitações motoras, tenho comigo a capacidade de enfrentar um mundo que não foi pensado para pessoas como eu, que dificulta o acesso a todos os espaços públicos, opções culturais e ao ensino superior por falta das adaptações necessárias.
Contra esses adversários, minha resposta veio na forma de dois diplomas universitários e uma pós-graduação. Veio na conquista da CNH contrariando muitas expectativas. Ou ainda no exercício de ocupação compatível com minha formação e remunerada apropriadamente, de acordo com o trabalho realizado.
Minha intensão aqui não é a da autocongratulação (até porque basta que sejam oferecidas as condições necessárias para que toda e qualquer pessoa com deficiência possa alcançar resultados semelhantes ou ainda melhores que os meus). É antes a de desfazer a noção comum que associa a deficiência física (ou qualquer outra) com fraqueza, com debilidade. A verdade é que a maioria dos indivíduos que olham para o PCD com preconceito ou pena, não aguentaria 10 min. se fosse colocada em nossa realidade. Essas pessoas certamente jogariam a toalha ainda no primeiro round.
Você chamaria de fraco alguém que passou por uma cirurgia sem anestesia? Pois é, isso não é roteiro de filme, foi exatamente o que aconteceu comigo. Há muitos anos atrás, dei entrada em um hospital para a remoção de um abscesso. Com o tecido em torno do local inflamado, a anestesia aplicada não surtiu efeito, e mesmo com meus repetidos protestos e avisos de que estava sentindo todo o procedimento, o médico responsável seguiu com as incisões e raspagem.
A despeito da fúria e indignação sentida, na época o que me ajudou a superar toda a dor da experiência foi justamente um trecho do discurso que dá título a esse texto. Lembro de trazer à mente que, assim como no boxe, na vida "não se trata de bater duro, se trata do quanto você consegue apanhar e seguir em frente. O quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando."
domingo, 17 de dezembro de 2023
O dia em que "salvei o mundo" junto com Clarice Herzog (e não fiz nenhum registro para provar)
Pois é, até bem pouco tempo atrás, acreditei que poderia mudar o mundo... Quem roubou minha coragem? Lá pelos idos de 2010-13, ao lado de um bando de malucos ambientalmente conscientes, integrava as fileiras do Ecoberrantes, sob a tutela da insubstituível jornalista e ativista Teresa Urban (1946-eterna).
Muito antes do "dia do fogo", do "ir passando a boiada" e do "aquecimento global é coisa de ecochato e impede o desenvolvimento da economia" que - olha só, quem diria? - tem culminado na oscilação extrema do clima que o mundo todo vem enfrentando nos últimos anos, nós, assim como tantos grupos que ousavam pensar no futuro climático, ocupávamos espaços públicos com intervenções artísticas, coleta de assinaturas e manifestações que já alertavam para a importância da floresta em pé, e para os riscos e consequências da flexibilização das leis ambientais no Brasil.
As atividades do nosso grupo na capital paranaense chamaram a atenção do S.O.S. Mata Atlântica, e por conta do barulho que estávamos fazendo, fomos convidados pelo Mário Mantovani para ir até São Paulo colaborar na elaboração da campanha "Floresta Faz a Diferença". E assim fizemos: colocamos as esperanças na mala e fomos - minha querida amiga Bianca e eu - integrar a reunião.
Uma vez lá, sentamos à mesa com pessoas muito especiais, entre elas o inspirador Rafael Jó Girão (que hoje é um dos diretores do Instituto Agir Ambiental) e, claro, Clarice Herzog, a incansável ativista que transformou a perda do marido Vladmir Herzog para os horrores e arbitrariedades da ditadura no Brasil, em propósito e força na busca pela verdade.
Essa mulher é tão forte e relevante para a história deste país que teve a sua história contada no livro "Heroínas desta História", organizado por Carla Borges e Tatiana Merlino e publicado pela Autêntica Editora, além de ser referenciada em uma das obras mais importantes da música brasileira: "O Bêbado e a Equilibrista", de Aldir Blanc e João Bosco, se tornando um símbolo de resiliência entre os que perderam familiares naquele contexto histórico.
Pois bem, entre as lembranças que tenho daquela reunião, a mais marcante delas é a da própria Clarice me perguntando qual era o que identificávamos como o principal desafio de sensibilizar o público para as questões ambientais relacionadas à preservação da Floresta Amazônica. A minha resposta foi, na ocasião, que o principal desafio, para nós sulistas, era mostrar para as pessoas que, mesmo geograficamente distantes da floresta, nossas ações também têm impacto sobre ela, uma vez que as condições do meio-ambiente são afetadas por uma série de sistemas interconectados, um influenciando no equilíbrio do outro.
"Gostei da sua perspectiva, rapaz!", foi o que ela disse após o fim da minha fala. O desafio era mesmo fazer o público em geral compreender que todos nós temos o nosso quinhão de responsabilidade, seja pela forma como nos alimentamos, como consumimos os recursos naturais disponíveis e a forma como esses modelos de consumo definem os padrões adotados pela indústria.
Preciso dizer que o incentivo e a vivacidade presente nas palavras de alguém a quem eu tanto admirava (e sigo admirando) me fizeram uma pessoa diferente hoje, mais confiante e muito mais determinado a defender da mesma forma tudo em que acredito. Tenho certeza que sou apenas mais uma das pessoas que foram transformadas pelo contato com ela mas se um dia esse texto chegar até ela, gostaria que soubesse que mudou a minha vida.
Não tenho ciência de quantas reuniões mais foram feitas e nem quantos setores das sociedade foram ouvidos até a elaboração final da campanha, mas lembro de ter sentido muito orgulho ao ver personalidades da época portando cartazes e desenvolvendo falas em apoio à campanha que, de certa forma, ajudamos a estruturar. A única coisa que lamento é não ter tido coragem de pedir à Clarice uma foto, embora esse encontro tenha ficado gravado para sempre em meu coração.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2023
A resposta que eu (não) dei... Em bom português
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| Indo buscar o que Cabral levou... 🇵🇹 |
Há algum tempo atrás lembro de ter lido sobre a declaração de alguma personalidade política ou midiática (talvez ambos), que lamentava o fato de o povo brasileiro não ter o mesmo envolvimento com a cultura lusitana que os portugueses teriam com os nossos produtos de entretenimento para exportação. Pois, afinal, nas palavras dele, somos nações irmãs.
Muito que bem. Lanço então uma pergunta ao leitor: você chamaria de irmão alguém que 1) veio até a sua casa sem ser convidado; 2) questionou a legitimidade de sua posse - mais que isso, arbitrariamente se declarou o novo dono dela, ignorando seus laços históricos e culturais com a terra; 3) saqueou seus pertences; 4) tomou à força mulheres e filhas; 5) escravizou seus filhos; 6) trouxe guerras e doenças que dizimaram seus parentes e 6) promoveu ativamente o apagamento de sua herança cultural, impedindo suas práticas religiosas, tradições e a transmissão do idioma nativo? Eu não.
Embora meu DNA compartilhe pouco com o dos povos nativos brasileiros, procuro ativamente conhecer a história do meu país e reconheço o lamentável papel que meus ancestrais europeus tiveram na pilhagem que os livros de história chamaram de "descobrimento".
Por ter ciência desse contexto histórico, quando saí do pais pela primeira vez para conhecer Portugal, postei uma foto nas redes sociais com a seguinte legenda: "Indo buscar o que Cabral Levou". Obviamente, em tom de brincadeira.
Durante o período em que lá estivemos, fizemos amizade sincera com o guia que nos acompanhava e, claro, o adicionamos às nossas redes para contatos futuros. Em dado momento, ele chega até a postagem e, a partir dela, desenvolve-se uma conversa.
Com ar professoral, o português se esforça para reforçar a perspectiva oficial, argumentando que, naquele recorte histórico, aquela porção de terra (que depois viria a se descobrir que tinha dimensões continentais) não havia sido reclamada por nenhuma nação "civilizada", com um rei constituído e que, portanto, Portugal tinha o direito de fincar nela o seu marco.
A resposta que não dei naquela oportunidade - em parte para evitar qualquer ofensa ao meu amistoso interlocutor, em parte para evitar que uma contenda precoce afetasse negativamente minha experiência no pais estrangeiro - passava pela constatação de que a percepção dos povos originários como incivilizados é um absurdo fundado apenas na ignorância.
Não é intelectualmente honesto aplicar a mesma régua para traçar noções gradativas para a organização social, as relações de poder ou mesmo a complexidade das manifestações culturais de um grupo, utilizando assim apenas um critério comparativo, sem considerar as particularidades de cada contexto onde as civilizações foram formadas.
O fato de a relação dos povos com a terra e organização do poder no "Novo Mundo" se dar de forma diferente da que ocorria na lógica imperialista europeia da época, não pode ser utilizado como sinônimo de incivilidade. Perpetuar essa visão serve apenas para cristalizar a noção de que existia "o jeito certo" de viver, em contraste com aquilo que era visto como barbárie por falta de aprofundamento nos costumes e cultura locais, ou mesmo por uma deslegitimação deliberada da cultura nativa por parte dos colonizadores.
Para tornar a empreitada da colonização viável e economicamente lucrativa no Brasil recém descoberto, uma série de violências foram perpetradas contra a população nativa. Essas violências têm reflexo até nos dias de hoje, e não há como negar que a história desses povos e a nossa enquanto país teria sido muito diferente se o encontro entre as duas culturas tivesse sido o de troca de experiências e coexistência pacífica ao invés do massacre que nos contam os registros históricos
segunda-feira, 11 de dezembro de 2023
O gringo que tentou comprar respeito - uma história lamentavelmente R($)eal
Faltava ainda a perna mais longa do trajeto para finalmente desembarcar em Portugal. Esperávamos - cerca de vinte pessoas bem sortidas -, na sala de embarque, pelo serviço terceirizado de auxilio deslocamento fornecido gratuitamente pelo aeroporto.
Alguns conversavam entre si, outros mergulhavam no torpor dos celulares para fugir da inércia da espera, quando entra em cena um gringo de compleição monumental, sendo empurrado em uma cadeira de rodas por uma funcionária com um terço das medidas corporais do homem, mas o dobro da determinação.
Ela interrompe o périplo por um instante e tenta explicar ao gringo que, para o maior conforto dele próprio, deveria aguardar cinco minutos, no máximo, pela a chegada de uma nova cadeira de rodas mais apropriada ao seu tipo físico. Tudo isso com toda a educação do mundo.
A pedra de Sísifo então se exalta e começa a dirigir impropérios à moça que, minutos antes, tracionava a cadeira como quem vence uma colina com o mundo nas costas. Com incredulidade, os presentes observam o desenrolar da celeuma.
Tentando acalmar os ânimos, outro funcionário vem ao socorro da colega. O novo contendor, mais enfático mas nem por isso menos educado, reforça que a medida é apenas um procedimento padrão e que visa apenas o bem-estar do passageiro.
Irredutível - e cada vez mais satisfeito com a atenção recebida -, o gringo dispara um sonoro "cale a boca, você está aqui para me servir, uma vez que paguei pelo embarque antecipado". À essa altura, a incredulidade dos espectadores involuntários se transformava em indignação. E já se ouviam vozes esparsas soltando um "gringo babaca" aqui, "deixa que se vire sozinho", acolá.
O atendente se impôs lembrando que aquele serviço, embora deva ser solicitado, não requer pagamento adicional do passageiro, que estava sendo conduzido da melhor forma possível - apesar da falta de educação que demonstrava - por cortesia, de forma gratuita. Ao que a pequena multidão aplaudiu.
Desencorajado pela manifestação dos terceiros, o individuo pareceu perceber o papel que desempenhava e amenizou o tom. Sendo propositadamente preterido em favor de outros passageiros, tentou se desculpar com os atendentes mas teve que amargar exatamente aquilo de que tentou fugir: a espera estendida.
Claro que em algum momento o passageiro foi embarcado com sucesso. Mas antes que fosse capaz projetar sua mesquinhez através do valor do seu dinheiro, teve ele de aprender que, sim, há virtudes que escapam da economia de trocas espúrias do capitalismo.
domingo, 10 de dezembro de 2023
Por trás de todos os preconceitos está a mesma ignorância
sábado, 8 de julho de 2023
Forma e Conteúdo
O conto que segue (poético demais e fantasioso de menos) foi recusado por uma coletânea de literatura fantástica pelo seu caráter não "tradicional". Aparentemente, a fantasia que presta, é somente aquela que se presta a falar de morte. Aquela que anda de mãos dadas com o grotesco, ou que se rende ao simulacro de tudo o que já se fez.
Então Tolkien não falou dos encantos da vida simples quando imaginou o Condado em O Hobbit? A jornada da Sociedade do Anel não é então uma ode ao companheirismo e à esperança na união dos homens para alcançar dias melhores?
Enfim, já estive nesse lugar e sei o quanto me custou. Aproveito então este espaço que é meu, para dividir com todos que se deixarem tocar por elas, as letras do jeito que elas mesmas decidiram ser. Com fantasia sim, expressa com suavidade e alguma reflexão.
...
Forma e conteúdo
Era um homem que gostava um bom bocado de conversa. Nas
maçãs do rosto, o tom cereja que lhe conferia sempre um sorriso em fogo brando,
mesmo depois do banho. Maria, que lhe pegava no pé, desde moleque, dizia dele: “este
tem melado na fala e nada na caçarola”.
A despeito de toda língua de sogra, gostava de ouvir o doce ou amargo que fosse do cozer da vida alheia. Não para degustar daquilo que normalmente se mantém escondidinho, mas para oferecer o conforto balsâmico de um conselho agridoce aos humores destemperados.
E enquanto se ocupava da redução dos dissabores do mundo, tomava (e comia) para si o peso dos amores malpassados, da amizade que desandou, da carreira sem consistência, da falta de cobertura moral, da vida sem açúcar nem sal.
Tentando sovar a massa excedente e se manter otimista, foi à nutricionista. Ela, dos cabelos flambados e voz de canela, mais que cardápio e tabela, quis saber dos sentimentos que botava na panela.
Se serviu das palavras para pôr tudo em pratos limpos: “há muito mais à mesa do que do que se pode digerir”, começou ele. E destrinchou tudo o que lhe alimentava o espírito e avolumava o corpo.
Com raiva entre os dentes, criticou a opulência do homem que desperdiça a carne enquanto ao lado outros são obrigados a roer os ossos. Sentiu na boca o fel da fome ao se compadecer do nativo desnutrido, da criança esquálida, do pedinte desvalido.
Ao marinar seus pensamentos por um instante, se fez doce de repente. Lembrou que além do azedume reinante, ainda há quem torne a vida mais al dente. Há quem doe preparo e mantimento, há quem mantenha orgânico o sentimento.
A especialista ouvia e se inspirava. Suas crenças às dele, sem reserva, misturava. Enquanto trocavam receitas de vida, seus sentires davam liga e um fenômeno incomum se processava.
Como em uma massa que aos poucos vai absorvendo os ingredientes, ela passou a se reconhecer nele. E ele passou a sentir em si muito do que era dela. Seus sonhos, medos e membros lentamente se confundiram em um produto doce e homogeneizado.
O amor untou a forma e o conteúdo garantiu o seu formato. De tanto se sentirem próximos, o casal se transformou em bem-casado.
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
O homem turvo e a menina dos pés descalços
O homem se derrete sobre o travesseiro. Sua memoria muscular evapora e vai se condensar no teto de madeira. Escolhe não lembrar do quão vivo esteve um dia. E se abandona... As pálpebras estão forçosamente unidas por uma substância umectante e sem nome, misto de lágrima e autocomiseração.
Balbucia, esse homem, o básico, menos que o básico, o mínimo, ou menos... Lutando em dizer o que resta em si: fome, dor, medo... e punção de morte. A vida teimando, ancorada em doses diárias de saúde sintética.
A menina dos pés descalços se compadece e se desdobra em zelo. Acolhe quando outros guardaram sua humanidade para si. E estende os braços em todas as direções. É o esteio dos passos incertos, a digna mão que alimenta e afasta as impurezas do corpo, a oração que lava os excessos de uma vida derramados pelo chão.
segunda-feira, 21 de setembro de 2020
1.000 ao meu lado 10.000 à minha direita - Reflexões (quase) Metafísicas
Nem bem as primeiras reflexões metafisicas brotaram no solo arenoso onde agonizava minha semente de mostarda, a resposta padrão, o paraquedas reserva da fé cristã introjetado em minha mente durante toda uma vida foi acionado: "É tudo parte de um plano maior, um plano de tal forma miraculoso que a minha mente humana jamais seria capaz de alcançar".
Respiro fundo. Mas, ao invés de tirar os pés da água, mergulho...
Qual a finalidade ideológica dessa sentença? Ao que ela se presta realmente? Assim como a única lei do paraíso que mantinha o primeiro homem e a primeira mulher longe dos frutos da árvore da ciência do bem e do mal no mito fundador judaico-cristão - por que é isso que essa fábula é -, essa sentença busca manter o fiel aturdido, dominado pela ignorância. Pois um ser que se considere pequeno, insignificante demais diante do mistério, jamais vai se atrever buscar descortiná-lo, jamais vai buscar novas perspectivas de observação e interpretação do mundo que estejam de alguma forma em dissonância com a doutrina totalizante, que deseja penetrar cada aspecto de sua vida, que quer o seu tudo, que existe do rebanho nada menos que o sacrifício do intelecto.
Mordo a maçã... E antes de me mortificar como pecador, me liberto do pecado. Passo a existir não porque sou filho do criador, mas porque penso... E se penso...
E ao pensar sobre o plano de Deus - ou melhor, deus - recordo da passagem bíblica em que deus exige de Abraão o sacrifício de seu único filho somente para aplacar sua vaidade. O que é vendido há milênios como demonstração de fé, se tivesse lugar nos dias de hoje seria suficiente para por em dúvida a sanidade do pai e serviria de argumento para a perda da guarda do filho.
Perdas familiares também enfrentou Jó ao se tornar um joguete nas mãos de deus e o diabo. Suas virtudes foram postas na balança enquanto o diabo tomava do cervo de deus as posses, a saúde e toda a sua prole. Tendo se mantido fiel, deus multiplica suas benesses e concede a Jó uma nova descendência. Louvai e bem dizei? Eu sempre me perguntei se aquelas sete crianças e esposa que sofreram pestes sem razão aparente e morreram de forma precoce e por motivo torpe mereciam o destino que tiveram...
Pergunte o leitor também a qualquer pai que tenha perdido um filho (de forma precoce e por motivo torpe) se esse filho é de alguma forma substituível por outro que venha a nascer? Eu perdi um irmão, e posso lhe dizer, leitor, de cadeira, que essa é uma dor que jamais se cala no seio de uma família, não importa quanto tempo passe ou quantas benesses ela venha a experimentar.
Há ainda o servo de deus que buscou auxílio divino para que ursos devorassem 72 crianças que faziam troça de sua calvície... De que plano maior esse episódio grotesco pode fazer parte? Exemplos não faltam de "planos maiores", sobretudo nas páginas do antigo testamento.
Devo confiar então nesses planos enquanto há homens travando guerras, escravizando seus semelhantes, extorquindo fieis justamente em nome de deus? Quem sabe o meu distanciamento não seja grande demais para apreender o sentido da fé que me escapa? Outras doutrinas me trariam respostas melhores do que aquela que recebi de berço?
Resolvi peregrinar, conhecer de perto as diversas faces do divino, na esperança de encontrar alguma em que me encontrasse minimamente refletido e que fornecesse as respostas que eu procurava.
...
Continua
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
1.000 ao meu lado e 10.000 à minha direita... E ainda assim me tornei (e continuo) ateu
Já há muito tomei a decisão consciente de me desligar de todo e qualquer rito religioso irrefletido praticado unicamente em função do círculo familiar em que me encontro inserido. Mas mesmo antes de possuir qualquer ingerência sobre esse aspecto da vida, a religião quase custou a minha, furtando-me indiretamente a chance de existir.
Explico.
No ambiente rural em que minha mãe nasceu, havia pouco ou nenhum espaço para o questionamento de ideias cristalizadas pelo senso comum. Entre a lavoura, a pequena criação de animais, as tarefas da casa e o cuidado com os irmãos mais novos, o tempo se convertia em um bem escasso para dar uso a reflexões existencialistas e, quando elas vinham à luz, lá estava o catolicismo à espreita, com suas respostas místico-morais definitivas e inquestionáveis, capazes de abrandar a curiosidade natural - sem deixar de atemorizar a consciência - para desencorajar qualquer investida antidogmática futura.
E foi inspirada por esse ambiente - e por um desejo tão corajoso quanto revolucionário de avançar nos estudos além do ponto considerado suficiente para uma mulher do seu tempo e na sua condição social - que ela ingressou como interna em um colégio confessional. Nem é preciso dizer que esse caminho é incompatível com a maternidade.
Depois de estudar piano, latim e perceber que apenas farinha e água compunham a hóstia, a biologia falou mais alto que o chamado e eu pude conhecer o mundo. Não que essa "ruptura" tenha representado um lar menos impregnado de símbolos, práticas e valores espiritualistas durante minha tenra idade. Pelo contrário: na minha casa, sempre se orou e agradeceu "a tudo o que se tem e à aquilo que ainda vamos ter".
Cresci com o "santo anjo" na ponta da língua para penitências emergenciais de curto prazo e a sequência mecanizada do rosário pronta para remediar desvios maiores.
O principal da minha educação moral se construiu mesmo pelo exemplo concreto. A coerção pelo medo do flagelo divino, a condição de refém em uma guerra milenar entre anjos e demônios se digladiando pela pureza de minhas virtudes sempre me pareceu por demais fabulosa - "fabulosa" aqui empregado em seu sentido literal - para realmente assombrar meus pensamentos e condicionar meus atos.
Aos 14 anos, porém, busquei a catequese de "adultos" para responder às convenções sociais e estreitar os laços com familiares pelos quais tenho muito amor e desde sempre quis chamar de padrinhos.
Salta à lembrança um episódio da época em que trouxe espanto à catequista ao perguntar a perspectiva bíblica sobre o ato da autossatisfação sexual. Foi interessante notar uma mulher adulta confrontando seus próprios tabus ao mesmo tempo em que buscava uma narrativa que reforçasse o seu papel socialmente esperado.
Na escola - também confessional - a oração surgia como uma obrigação diária antes de adentrar ao conhecimento. Os mesmos dogmas, as mesmas doutrinas competindo com o darwinismo, a biologia, a física na tentativa da criação de uma falsa simetria que meus olhos infantes ainda não eram suficientemente imbuídos de ceticismo para notar. Minha afinidade com a palavra escrita me levou, inclusive, a entregar um poema ao bispo de Curitiba à época. Poema esse que nem uma cópia eu guardei.
A fissura nesses alicerces começou a aparecer somente muitos anos depois. Já na vida adulta, leitor contumaz, tomei contato com o livro "Éramos jovens na guerra: Cartas e diários de adolescentes que viveram a Segunda Guerra Mundial" (Sarah Wallis/Svetlana Palmer - Editora Objetiva). Um dos relatos me tocou profundamente, trazendo reflexões inevitáveis.
Um jovem judeu, prisioneiro na Polônia ocupada por Hitler, relata as agruras de Auschwitz e, em seu desespero, escreve: "Se Deus existe, ele vai ter de implorar pelo meu perdão".
Após ser impactado pela dureza dessas palavras e, de certa forma, comungar dessa dor, deitei o livro ao colo e chorei.
A fé judaica é um dos principais elementos de união e distinção de um povo que, historicamente, foi alvo de muitas perseguições e esteve envolvido em disputas territoriais. Para que um de seus filhos abandonasse suas convicções mais basilares e fizesse tal registro, sua desesperança e sentimento de abandono devem ter sido lancinantes.
Lembro que o pensamento que me dominou por semanas foi o seguinte: se existe uma providência, uma presença superior, de amor infinito que rege o universo e de tudo tem ciência mesmo antes de cada movimento de cada partícula viva, por que essa entidade permite a ocorrência de tais atrocidades passivamente?
...
Continua...
domingo, 19 de julho de 2020
Mortalha
Arfa o homem, tentando manter dentro de si os segundos que lhe escapam
Pilulas de oração (e pós-verdade) conduzem os lamentos dos dias correntes
sábado, 4 de abril de 2020
Eu lhe ofereço a palavra...
Instrumento humilde da costura textual, emprego algum repertório de vivencia ou ruminação acumulado às divagações estilísticas da prosa ou poesia e nelas me reconheço. Mais que isso, através delas me ofereço ao escrutínio do mundo.
Tiro de mim a luz que me anima e a estendo aos olhos do leitor. Acolho o júbilo, absorvo a crítica do mesmo modo: vulnerável, ansiando pela semente bem plantada, pela reflexão que encontra eco nas vibrações do receptor. Ou, quem sabe, pela experiência solitária e única do deleite.
E quando a palavra encontra um modo de preencher o leitor de algo que lhe falte, ela então molda a si mesma, em sentido e contorno, a um novo universo interior e se torna recurso para criações particulares, em um fluxo de mutação continuo vivificante.
Há, no entanto, o terreno estéril da indiferença. A semente de mostarda que míngua em solo arenoso. Infecunda, a palavra não lida deixa escoar no nada o seu sentido. É casa ornamentada em todas as suas minúcias mas vazia. É o rompimento do propósito do beletrista.
Nesse momento, também eu sou lacuna, sou aquilo que poderia ter sido. Existo somente em potência porque morri em experiência.
E me questiono. Se tenho eu o direito de continuar escrevendo, trazendo linhas ao mundo que jamais vão se ligar às vidas alheias. Há muitos anos, cada novo novo texto já nasce sendo o último. E eu me agarro à esperança implícita nas reticências... Antes do ponto final.
sábado, 21 de março de 2020
Três linhas de solidão...
quarta-feira, 11 de março de 2020
Propósito
Nas ruas, um surto de conformismo se mistura ao regozijo tão asséptico quanto violento da impessoalização programática. O homem é o panóptico do homem.
A verdade, desmembrada de todas as suas virtudes, confunde-se com os códigos binários geradores de entendimentos binários. Formula então o pensamento dominante, que esmaga as humanidades com mão invisível e coração estéril. O futuro deixou de acreditar em si mesmo.
A queda crepitante do arbóreo envolvimento coletivo deu lugar a um céu enegrecido de contraproducências institucionalizadas. O Estado atrai para si, além do monopólio da violência, o monopólio do absurdo. O cotidiano não é mais que uma piada infrutífera diante das lentes do mundo.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
Cada fração de você
Aguço o olhar para apreender o minimo gesto nas prateleiras da memória. Procuro dar significado às amenidades, aos sonhos relatados à mesa do café, às anedotas repetidas somente para mantê-las frescas, vivas, coloridas pelo tempo em que puderem ser.
Converto em abraços cada motivo minimamente plausível porque necessito carregá-los comigo quando a solidão chegar. E alcanço a conclusão (mais do que óbvia) de que não saberia enfrentar a frieza desse mundo sem teu coração pra me guiar
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