sábado, 21 de março de 2020

Três linhas de solidão...

O espaço urbano aproxima as solidões. Por entre as ranhuras do concreto luta o orgânico para semear as relações. O homem na rua veste máscara por sobre a máscara habitual.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Propósito

Preso na lógica robotizada dos dias correntes, percebe as luzes da iniquidade esmaecendo até mesmo seus fluidos internos. Houve um tempo em que o tempo podia ser medido pelos ciclos de pulsação de seu proposito. Hoje, apenas o seu silêncio é combativo.

Nas ruas, um surto de conformismo se mistura ao regozijo tão asséptico quanto violento da impessoalização programática. O homem é o panóptico do homem.

A verdade, desmembrada de todas as suas virtudes, confunde-se com os códigos binários geradores de entendimentos binários. Formula então o pensamento dominante, que esmaga as humanidades com mão invisível e coração estéril. O futuro deixou de acreditar em si mesmo.

A queda crepitante do arbóreo envolvimento coletivo deu lugar a um céu enegrecido de contraproducências institucionalizadas. O Estado atrai para si, além do monopólio da violência, o monopólio do absurdo. O cotidiano não é mais que uma piada infrutífera diante das lentes do mundo.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Cada fração de você

Vivo uma urgência em fixar seus detalhes. Nunca, como agora, sua risada pareceu se dispersar no ar com tamanha brevidade. Busco entrelaçar as tuas silabas, o teu tom de voz, por entre esses dedos de beletrista, na esperança de que decidam acomodar-se côncavas na minha mão fechada e permanecer comigo para além do tempo.

Aguço o olhar para apreender o minimo gesto nas prateleiras da memória. Procuro dar significado às amenidades, aos sonhos relatados à mesa do café, às anedotas repetidas somente para mantê-las frescas, vivas, coloridas pelo tempo em que puderem ser.

Converto em abraços cada motivo minimamente plausível porque necessito carregá-los comigo quando a solidão chegar. E alcanço a conclusão (mais do que óbvia) de que não saberia enfrentar a frieza desse mundo sem teu coração pra me guiar

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Simulacro do Pássaro de Corda

O homem sentado no fundo do poço olhava as estrela por entre a abertura em formato de meia-lua. Outro caminhava despretensiosamente pelo mercado de histórias até ouvir o eco dos pensamentos do primeiro. Mesmo habitando mundos diferentes, algo parecia ligá-los profundamente, era impossível não atender ao chamado daquelas linhas difusas.

Enquanto os acontecimentos se seguiam e se avolumavam,  a corda para o poço parecia alongar-se por vontade própria, dobrando-se sobre si mesma e produzindo embaraços grossos como raízes velhas e sonolentas, debruçadas sobre anos de história do mundo.

Hora a voz do Pássaro de Corda soava como a de um tenente desiludido com suas memórias e torturado pela longevidade e o peso da guerra, hora fazia crer que trazia a docilidade caótica da menina que fabricava perucas. A costura entre essas realidades se dava através de frases pinçadas entre o consciente e o subconsciente, mal entrelaçadas em relações de frágil estrutura.

Sentado à beira do poço, o curioso ouvia incrédulo as previsões da mulher com rabo de gato, as queixas da esposa maculada, as palavras mudas do menino que construiu um mundo ao redor de si. Com o próprio intelecto, se via obrigado a construir as pontes inacabadas cada vez que o interlocutor teimava em cruzar paredes e voltar fragmentado. 

Embora as palavras ganhassem uma inventividade cilíndrica viajando na escuridão do poço, a coesão não resistia ao perfume de pólen do quarto 208 e se diluia nos mistérios do copo de whisky da mulher incógnita. 

Parecia haver no homem reminiscente - ou na mente por traz dele - uma necessidade de transbordar suas próprias impressões do mundo, de modo que, entre os delírios, se permitia bifurcar a narrativa e distribuir as palavras em labirintos não comunicantes, o que produziu, obviamente, um desgaste da relação entre narrador e ouvinte.

De modo geral, o homem que ouvia admirou-se com a capacidade do outro de enredar a atenção através das palavras, mas observou que um discurso lacunoso pode facilmente ser compreendido como algo mais elevado do que realmente é devido à natureza da mente de preencher os espaços vagos (deixados propositalmente ou não).     

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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Como estar em casa

Os pés recordam do caminho como se dele nunca tivessem se distanciado. Como é bom se deixar preencher daquele ar familiar. Cada desnível, cada gramínea, cada pequeno trecho de passeio, cada resquício do tempo parece impregnado de uma vida em suspenso, a esperar pelo encaixe de uma peça que lhe falta para que seja possível dar corda no andamento do mundo e restabelecer o cotidiano.

O gosto dos doces se mistura ao sabor das reminiscências pueris da terceira infância, enquanto o caminhante resgata em si mesmo a melhor parte do que jamais pode voltar a ser. Permite, sente, dá espaço à experiência de se reconhecer parte daquele universo roubado prematuramente...

E quando reconhece, ladeando a praça, a árvore de romã carregada de seus encantos sazonais, - os mesmos que pincelaram para sempre de um aroma escarlate as lembranças de seus mais vivos verões, - tem a certeza indelével  de que é feito de única matéria chamada saudade   

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Um Adeus Desajeitado

Que sorte temos nós. Tudo aprendemos: andar, falar, correr... Mas amar não, amar já nascemos sabendo. Assim como reconhecer quem nos ama verdadeiramente.

Só assim se explica esse amor construído de tão poucos fragmentos de vivência. Vó Ignês era feita de gestos. Da chimia passada no pon, do bombom para afastar a saudade de casa, da cantoria em italiano depois do jantar. E foi tão fácil amar esses gestos, foi tão fácil dissolver a enorme distância no primeiro abraço...

Um menino da cidade que aprendeu pelas tuas mãos descascar pera. E pelo teu talento culinário a amar polenta (daquelas que se corta com o fio, é bom que se diga). Como queria ter ouvido mais suas canções, como queria tê-la abraçado mais... Ter tido mais tempo para descobrir mais de você em mim, ter tido tempo de ser mais seu neto.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Sobre a fragilidade das relações

O quanto de si mesmo você permite que o mundo veja? Talvez entre alguma fresta imperceptível que resida entre o seu personagem corporativo e os seus múltiplos indivíduos sociais você se permita um fragmento de "verdade". Aceitar essa premissa é quase como admitir que existe uma personalidade primordial em todo ser que se galvaniza e se confunde com as camadas superiores daquilo que se pretende ser na tentativa de sobrevivência dentro da dinâmica de forças sociais. Um "ser-em-sí"

Não é o caso de buscar a metafísica. A indivisibilidade da "alma" é uma construção conceitual fundada na obscuridade - ingênua ou provocada - do entendimento dos processos fisíco-químicos e psicossociais que se acham na base da construção do indivíduo. Pronto, a partir deste momento você já pode me chamar de materialista.

Ou talvez você prefira a abordagem do "papel em branco", onde a medida em que o indivíduo é exposto a uma série de experiências marcantes, capazes de moldar sua personalidade a medida em que, como foi dito, certas marcas se imprimem na estrutura psíquica do ser e passam a integrar sua visão de mundo e a determinar o filtro daquilo que é aceitável expor ao julgo alheio.

Seja como for, o fato é que nunca - ou quase nunca - nos mostramos por completo. Cedendo ao jogo de forças do ambiente social, selecionamos porções de nós mesmos mais adequadas às ocasiões e finalidades que se apresentam externamente, o que torna o discurso padrão sobre "ser verdadeiro" uma espécie de "hipocrisia involuntária" que todos praticamos.

Em face disso, não espanta a fragilidade das relações dentro da contemporaneidade (e na verdade dentro de toda história humana da vida em sociedade). Seja a pós-modernidade liquida ou apenas desinteressante o suficiente a ponto de se tornar incapaz de oferecer atrativos perenes à atenção dos indivíduos, o fato é que, cada vez mais são frágeis os laços que nos fazem reconhecíveis como comunidade, mesmo dentro de uma aldeia global.