domingo, 19 de julho de 2020

Mortalha

A urgência solitária da ambulância rasga a mortalha da noite
Arfa o homem, tentando manter dentro de si os segundos que lhe escapam
Pilulas de oração (e pós-verdade) conduzem os lamentos dos dias correntes


sábado, 4 de abril de 2020

Eu lhe ofereço a palavra...

Cada passo que arrisquei foi para ser lido. Reconheci-me como indivíduo, formulei caminhos mentais, organizei minha visão de mundo para ser lido. Mesmo antes de conhecer as letras, toda e qualquer construção física e social  a que me submeti, consciente ou inconscientemente, teve como reflexo e objetivo germinar um artífice da palavra.

Instrumento humilde da costura textual, emprego algum repertório de vivencia ou ruminação acumulado às divagações estilísticas da prosa ou poesia e nelas me reconheço. Mais que isso, através delas me ofereço ao escrutínio do mundo.

Tiro de mim a luz que me anima e a estendo aos olhos do leitor. Acolho o júbilo, absorvo a crítica do mesmo modo: vulnerável, ansiando pela semente bem plantada, pela reflexão que encontra eco nas vibrações do receptor. Ou, quem sabe, pela experiência solitária e única do deleite.

E quando a palavra encontra um modo de preencher o leitor de algo que lhe falte, ela então molda a si mesma, em sentido e contorno, a um novo universo interior e se torna recurso para criações particulares, em um fluxo de mutação continuo vivificante.

Há, no entanto, o terreno estéril da indiferença. A semente de mostarda que míngua em solo arenoso. Infecunda, a palavra não lida deixa escoar no nada o seu sentido. É casa ornamentada em todas as suas minúcias mas vazia. É o rompimento do propósito do beletrista.

Nesse momento, também eu sou lacuna, sou aquilo que poderia ter sido. Existo somente em potência porque morri em experiência.

E me questiono. Se tenho eu o direito de continuar escrevendo, trazendo linhas ao mundo que jamais vão se ligar às vidas alheias. Há muitos anos, cada novo novo texto já nasce sendo o último. E eu me agarro à esperança implícita nas reticências... Antes do ponto final. 

sábado, 21 de março de 2020

Três linhas de solidão...

O espaço urbano aproxima as solidões. Por entre as ranhuras do concreto luta o orgânico para semear as relações. O homem na rua veste máscara por sobre a máscara habitual.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Propósito

Preso na lógica robotizada dos dias correntes, percebe as luzes da iniquidade esmaecendo até mesmo seus fluidos internos. Houve um tempo em que o tempo podia ser medido pelos ciclos de pulsação de seu proposito. Hoje, apenas o seu silêncio é combativo.

Nas ruas, um surto de conformismo se mistura ao regozijo tão asséptico quanto violento da impessoalização programática. O homem é o panóptico do homem.

A verdade, desmembrada de todas as suas virtudes, confunde-se com os códigos binários geradores de entendimentos binários. Formula então o pensamento dominante, que esmaga as humanidades com mão invisível e coração estéril. O futuro deixou de acreditar em si mesmo.

A queda crepitante do arbóreo envolvimento coletivo deu lugar a um céu enegrecido de contraproducências institucionalizadas. O Estado atrai para si, além do monopólio da violência, o monopólio do absurdo. O cotidiano não é mais que uma piada infrutífera diante das lentes do mundo.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Cada fração de você

Vivo uma urgência em fixar seus detalhes. Nunca, como agora, sua risada pareceu se dispersar no ar com tamanha brevidade. Busco entrelaçar as tuas silabas, o teu tom de voz, por entre esses dedos de beletrista, na esperança de que decidam acomodar-se côncavas na minha mão fechada e permanecer comigo para além do tempo.

Aguço o olhar para apreender o minimo gesto nas prateleiras da memória. Procuro dar significado às amenidades, aos sonhos relatados à mesa do café, às anedotas repetidas somente para mantê-las frescas, vivas, coloridas pelo tempo em que puderem ser.

Converto em abraços cada motivo minimamente plausível porque necessito carregá-los comigo quando a solidão chegar. E alcanço a conclusão (mais do que óbvia) de que não saberia enfrentar a frieza desse mundo sem teu coração pra me guiar

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Simulacro do Pássaro de Corda

O homem sentado no fundo do poço olhava as estrela por entre a abertura em formato de meia-lua. Outro caminhava despretensiosamente pelo mercado de histórias até ouvir o eco dos pensamentos do primeiro. Mesmo habitando mundos diferentes, algo parecia ligá-los profundamente, era impossível não atender ao chamado daquelas linhas difusas.

Enquanto os acontecimentos se seguiam e se avolumavam,  a corda para o poço parecia alongar-se por vontade própria, dobrando-se sobre si mesma e produzindo embaraços grossos como raízes velhas e sonolentas, debruçadas sobre anos de história do mundo.

Hora a voz do Pássaro de Corda soava como a de um tenente desiludido com suas memórias e torturado pela longevidade e o peso da guerra, hora fazia crer que trazia a docilidade caótica da menina que fabricava perucas. A costura entre essas realidades se dava através de frases pinçadas entre o consciente e o subconsciente, mal entrelaçadas em relações de frágil estrutura.

Sentado à beira do poço, o curioso ouvia incrédulo as previsões da mulher com rabo de gato, as queixas da esposa maculada, as palavras mudas do menino que construiu um mundo ao redor de si. Com o próprio intelecto, se via obrigado a construir as pontes inacabadas cada vez que o interlocutor teimava em cruzar paredes e voltar fragmentado. 

Embora as palavras ganhassem uma inventividade cilíndrica viajando na escuridão do poço, a coesão não resistia ao perfume de pólen do quarto 208 e se diluia nos mistérios do copo de whisky da mulher incógnita. 

Parecia haver no homem reminiscente - ou na mente por traz dele - uma necessidade de transbordar suas próprias impressões do mundo, de modo que, entre os delírios, se permitia bifurcar a narrativa e distribuir as palavras em labirintos não comunicantes, o que produziu, obviamente, um desgaste da relação entre narrador e ouvinte.

De modo geral, o homem que ouvia admirou-se com a capacidade do outro de enredar a atenção através das palavras, mas observou que um discurso lacunoso pode facilmente ser compreendido como algo mais elevado do que realmente é devido à natureza da mente de preencher os espaços vagos (deixados propositalmente ou não).     

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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Como estar em casa

Os pés recordam do caminho como se dele nunca tivessem se distanciado. Como é bom se deixar preencher daquele ar familiar. Cada desnível, cada gramínea, cada pequeno trecho de passeio, cada resquício do tempo parece impregnado de uma vida em suspenso, a esperar pelo encaixe de uma peça que lhe falta para que seja possível dar corda no andamento do mundo e restabelecer o cotidiano.

O gosto dos doces se mistura ao sabor das reminiscências pueris da terceira infância, enquanto o caminhante resgata em si mesmo a melhor parte do que jamais pode voltar a ser. Permite, sente, dá espaço à experiência de se reconhecer parte daquele universo roubado prematuramente...

E quando reconhece, ladeando a praça, a árvore de romã carregada de seus encantos sazonais, - os mesmos que pincelaram para sempre de um aroma escarlate as lembranças de seus mais vivos verões, - tem a certeza indelével  de que é feito de única matéria chamada saudade