Há esse cansaço no ar. Uma espécie de traquitana de aço fundido presa à aura dos caminhantes urbanos. Rebelam-se nas pequenas coisas e se apequenam nas grandes. Já não escrevem cartas...Já não têm tempo de viver enquanto existem.
Não acorde, mesmo assim enlouqueça... Pois a cidade chama...
terça-feira, 11 de novembro de 2014
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Escritores vão ao cemitério em busca de inspiração
Projeto itinerante Criaturas Crônicas aproveitou o Dia de Finados para colher histórias, que viraram textos compartilhados em leitura coletiva
Rico Boschi - 04/11/2014
Foto: Rafael Pto
No último domingo, Dia de Finados, cerca de 30 escritores se
reuniram no Cemitério Municipal de Curitiba. Estavam munidos de
bloquinhos e canetas com o objetivo de captar histórias diversas: houve
quem retratasse uma família que discutia como a avó – torcedora do
Coritiba – poderia, por Deus, ser enterrada ao lado de outro parente,
torcedor do Atlético. Houve quem se espantasse com a inocência de uma
criança que pedia aos pais: “Quando morrer, quero ganhar uma ‘casa’ tão
bonita quanto essa”. A casa, no caso, era um mausoléu pelo qual passava a
família.
É assim, em qualquer lugar de grande circulação – mercados, ônibus e cemitérios – e em data, local e horário determinado semanalmente, que o grupo de escritores Criaturas Crônicas de repente se mistura à multidão para simplesmente observar e também se inspirar. Aí, é só escrever. Ali mesmo, na hora.
O período de escrita é sucedido por uma leitura coletiva, realizada também em local público, onde os cronistas têm a chance de comentar a produção de seus companheiros. Trocar experiências com os curiosos acontece quase sempre.
O projeto, idealizado por Fabiano Vianna e Caroline Lemos, surgiu de uma expansão do Croquis Urbanos – grupo de artistas que se reúne para desenhar locais icônicos de Curitiba. Segundo Vianna, “o ponto mais importante é estar próximo da cidade, dos acontecimentos. O objetivo é registrar o cotidiano delirante da urbe porque esta observação, com o escritor na rua, torna propício o surgimento de personagens que podem fazer parte da identidade da cidade”, comenta.
Entre os artistas que participaram está o ilustrador Gustavo Ramos – que também integra o Croquis Urbanos. Ele acredita que o mais interessante do projeto Criaturas Crônicas é aprender a enxergar a cidade por meio do olhar alheio. “É possível identificar e partilhar histórias que talvez de outra forma não nos chamassem a atenção,” afirma.
Os próprios artistas postam seus trabalhos na página do projeto no Facebook (www.facebook.com/criaturascronicas). Um blog (www.criaturascronicas.blogspot.com.br) administrado por Fabiano Vianna também já existe. Um projeto para a compilação desses textos, juntamente com os desenhos do Croquis Urbanos, em um livro, deve sair do papel em breve.
O encontro do último domingo foi o 11.º realizado pelo grupo, e o próximo já tem data e local definidos: sábado, 8, na feira de orgânicos do Passeio Público, a partir das 9h30. O único pré-requisito para quem quiser participar é estar disposto a enxergar a cidade, principal inspiração, com olhos curiosos.
Matéria originalmente publicada na Gazeta do Povo
É assim, em qualquer lugar de grande circulação – mercados, ônibus e cemitérios – e em data, local e horário determinado semanalmente, que o grupo de escritores Criaturas Crônicas de repente se mistura à multidão para simplesmente observar e também se inspirar. Aí, é só escrever. Ali mesmo, na hora.
O período de escrita é sucedido por uma leitura coletiva, realizada também em local público, onde os cronistas têm a chance de comentar a produção de seus companheiros. Trocar experiências com os curiosos acontece quase sempre.
O projeto, idealizado por Fabiano Vianna e Caroline Lemos, surgiu de uma expansão do Croquis Urbanos – grupo de artistas que se reúne para desenhar locais icônicos de Curitiba. Segundo Vianna, “o ponto mais importante é estar próximo da cidade, dos acontecimentos. O objetivo é registrar o cotidiano delirante da urbe porque esta observação, com o escritor na rua, torna propício o surgimento de personagens que podem fazer parte da identidade da cidade”, comenta.
Entre os artistas que participaram está o ilustrador Gustavo Ramos – que também integra o Croquis Urbanos. Ele acredita que o mais interessante do projeto Criaturas Crônicas é aprender a enxergar a cidade por meio do olhar alheio. “É possível identificar e partilhar histórias que talvez de outra forma não nos chamassem a atenção,” afirma.
Os próprios artistas postam seus trabalhos na página do projeto no Facebook (www.facebook.com/criaturascronicas). Um blog (www.criaturascronicas.blogspot.com.br) administrado por Fabiano Vianna também já existe. Um projeto para a compilação desses textos, juntamente com os desenhos do Croquis Urbanos, em um livro, deve sair do papel em breve.
O encontro do último domingo foi o 11.º realizado pelo grupo, e o próximo já tem data e local definidos: sábado, 8, na feira de orgânicos do Passeio Público, a partir das 9h30. O único pré-requisito para quem quiser participar é estar disposto a enxergar a cidade, principal inspiração, com olhos curiosos.
Matéria originalmente publicada na Gazeta do Povo
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
A construção da significação
Um olhar por sobre as lentes de Eduardo Baggio
Foto: Reprodução Facebook
Entre o “luz, câmera, ação”
existe ainda um filtro muito mais criterioso. Dos recursos à disposição de um
cineasta, o mais poderoso, diz o próprio entrevistado, é o repertório, que
molda o olhar e que serve de norte para o processo de significação da mensagem.
Doutor em Comunicação e semiótica pela Pontifícia Univercidade de São Paulo,
Eduardo Baggio vem explorando as possibilidades audiovisuais mesmo antes da
estreia no cinema propriamente dito.
Quando relembra os primeiros
anos de carreira – como estagiário do curso de jornalismo – na função de editor
de vídeo na Rede Manchete, ressalta que, antes do declínio da emissora, a carga
de trabalho e as diferentes demandas o obrigaram a um amadurecimento forçado:
“[...] a TV tinha na época o Manchete Repórter e pediam para que eu fosse ao
interior fazer filmagens, eles perguntavam se eu tinha conhecimento e eu falava
que sabia”, relata.
Na TV, adaptou-se rapidamente
à edição, habilidade que se mostraria, mais tarde, fundamental para a
construção da subjetividade de suas narrativas. Se tivermos como exemplo a obra
“28 anos” – vencedora do Festival do Minuto – Baggio constrói a relação de
similaridade entre ele e seu pai através de um recurso essencialmente de
edição. O cineasta opta com colocar lado a lado fotografias em que os dois
personagens constam de idades próximas, segundo o autor, cerca de três ou
quatro anos de vida. A correlação com o tema do festival – mínima semelhança –
fica a cargo do espectador. A trilha, uma gravação de pai e filho cantando uma
canção infantil, reforça ainda mais essa similaridade.
Afeito ao cinema conceitual –
mas sem diminuir a importância do caráter informativo do cinema – Eduardo
Baggio mostra um domínio agudo das funções significantes na utilização da
metáfora imagética. É o que se pode perceber no curta “Sonetos”, inspirado nas
obras do poeta Avelino de Araújo. Com a utilização da imagem de um garfo ou
arames farpados como índice[1]
representante dos versos e estrofes na estruturação do poema, o cineasta
representa mutuamente a identidade, o traço reconhecível e característico das
obras-objetos da significação.
Interessante notar que,
apesar da profundidade das relações entre semântica e metalinguística que as
imagens cumprem dentro da narrativa, o conceito da obra é dotado de um alto
grau de simplicidade, como nota o próprio Baggio ao afirmar: “Quando a ideia
para o ‘Sonetos’ surgiu estávamos eu e um colega de equipe no restaurante da
universidade e eu fui desenhando em guardanapos, quadro a
quadro, como ficaria na tela”.
A percepção peculiar que
marca os trabalhos acima também é traço indelével do longa Amadores do Futebol,
que, ao invés de recorrer aos clichês que circundam o esporte, trata, antes,
daqueles que o constroem e glorificam: torcedores, jogadores, comunicadores,
familiares, apreciadores enfim, das pessoas. Através de personagens como as
esposas dos esportistas – obviamente não profissionais – que os acompanham com
o objetivo de vigiar os maridos, o diretor humaniza o universo futebolístico,
aproximando-o do cotidiano do espectador e provocando empatia. Ao tratar da
realidade que precede os grandes clubes, os valores milionários, a fama, o
filme passa a revelar um amor desinteressado, genuíno do homem com a bola,
evidenciando também o aspecto agregador do esporte: “[...] o filme tem uma
temática mais popular, um apelo pela questão do futebol – embora eu não
quisesse fazer um filme sobre futebol.
O que me interessava eram as pessoas. O advogado joga com fulano que é de outra
cabeça, de outro bairro...”. Novamente chegamos à questão da significação, que
está por traz da dedicação, ou ainda mais, devoção, desses personagens ao
esporte.
Em Traço Concreto,
documentário dirigido em parceria com Danilo Pschera, o foco é a arquitetura modernista. Nesse
contexto, a significação se faz através de movimentos de câmera e
enquadramentos para revelar os planos e dimensões arquitetônicas de três
construções distintas. Ao mesmo tempo em que segue uma linearidade conceitual
mostrando a elaboração do projeto de uma casa, a edificação de uma segunda e a
demolição de uma terceira, traça-se também, semióticamente falando, a
representação temporal dos períodos do movimento arquitetônico em que a obra
cinematográfica está circunscrita.
Já em “Santa Teresa”,
documentário que trata do passado do Hospital Santa Teresa que já funcionou
como clínica de internação compulsória para enfermos atingidos pela Hanseníase,
em uma época em que, devido à fragilidade dos tratamentos, acreditava-se que os
portadores da doença deveriam ser privados do convívio social. Através de
depoimentos mesclados com imagens capitadas in
loco – com uma equipe de apenas três pessoas, Baggio sutilmente aponta o
contraste entre a beleza natural das dependências da clínica com o prejuízo
psicológico enfrentado pelos internos que, em muitos casos, mesmo possuindo o
direito de sair após 30, 40, ou até 70 anos confinados na instituição, já não
tem – ou nem puderam construir vínculo com o “mundo exterior”. O longa, que faz
parte da tese de Eduardo em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, sobre o qual o
diretor comenta: “[...] é um filme muito mais tradicional, a história é mais
bem pontuada nas falas. O meu interesse é mais informacional, eu diria até
bastante jornalístico, que é contar a história daquelas pessoas. Embora as
passagens me agradem muito, eu nem me sentia livre para elaborar uma coisa mais
poética diante daquelas histórias...”.
É
através dessa multiplicidade de elementos e de referências que o artista
constrói a sua linguagem e transcreve a sua visão para as obras que assina,
fazendo com que a sua produção carregue uma espécie de marca – mesmo que
inconsciente – de estilo e identificação. A significação passa, como já foi
dito no início, pelos interpretante, ente que fecha a tríade semiótica
defendida por Peirce, e é com base no repertório, que o filtro derradeiro do
sentido consolida (ou inviabiliza) o entendimento. Sobre esse aspecto, o
cineasta ressalta que: “existem elementos como enquadramento de câmera,
movimentos, referências – como a estrutura do soneto, que existe desde o
período elizabethano que comunicam e se o espectador não possuir o entendimento,
pode não interagir com o filme”.
[1]
Leia-se sob a ótica de Peirce, para quem o índice é um signo (representante)
que guarda semelhança com seu objeto (representado) tendo-se como base a
experiência vivenciada, neste caso, o conhecimento sobre a extrutura do soneto,
obrigatoriamente dividida em dois quartetos e dois tercetos.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
20 anos do Plano Real – Entrevista Eduardo André Cosentino
O dia 1º
de julho de 2014 marcou o vigésimo aniversário do plano econômico responsável
pela instituição da moeda corrente no país: o Plano Real. Unanimidade, no
entanto, entre analistas econômicos e sociedade é que esse plano foi
responsável por transformações muito mais profundas. O conjunto de medidas
idealizadas pela equipe do então Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso
teve como principal demanda o controle dos efeitos nocivos do “Dragão” da
inflação, que minava o poder aquisitivo do brasileiro, bem como a credibilidade
do país junto a investidores estrangeiros.
Com um
pico de taxa de 1703% alcançado em 1993, essa distorção da economia gerava
ondas de supervalorização de preços de bens de consumo da noite para o dia,
acompanhadas de uma corrida do consumidor às lojas para estocar bens de
primeira necessidade. A especulação financeira passou a ser mais rentável do
que a troca de bens de consumo no mercado interno, prejudicando diversos
setores industriais chave do país, o que dificultava ainda mais a estabilização
frente à flutuação excessiva do índice inflacionário.
Para
compreender de que forma o Plano Real foi capaz de conter (e controlar) a
escalada da inflação no país, o Sistema Muito Nervoso (SMN) conversou com o economista Eduardo
André Cosentino – também consultor empresarial, administrador e especialista em
Gestão de Assuntos Públicos – procurando traçar um panorama dos erros e acertos
do referido pacote econômico, bem como mapear os desafios que enfrenta na
tentativa de se manter forte por mais vinte anos:
SMN – Diante do panorama desfavorável
observado na economia durante o governo Itamar Franco – época de implantação do
Plano Real – como se deu a transição da moeda anterior para o novo valor
monetário?
Cosentino
– O plano de implantação foi dividido em três partes: em um primeiro momento,
houve a fase de equilíbrio das contas públicas, alcançado através da redução da
máquina estatal, de medidas que diminuíssem a circulação de papel moeda
(limites de crédito) e incentivo ao mercado interno. A segunda etapa foi
caracterizada pela adoção de uma “moeda virtual” – a unidade real de valor
(URV) – com o papel de facilitar a conversão de valor entre o cruzeiro e o real
– que durante um curto período de tempo estiveram simultaneamente no mercado,
com a cotação da unidade referencial respeitando a equivalência de um para um
em relação ao dólar. A terceira etapa, por sua vez, consistiu na adoção de
medidas de controle dos preços que, como primeira reação, se elevaram. Também
houve medidas como a criação de metas anuais de controle da inflação e da taxa
Selic para regular a incidência de juros nas transações comerciais e a busca
por equilíbrio na relação importação/exportação, desta vez também sujeitas às
variações do livre comércio de mercados.
SMN – Essas novas dinâmicas de mercado
tiveram como efeito fenômenos como a privatização de alguns serviços que antes
estavam sob responsabilidade do Estado. Efeito esse muito criticado à época.
Como você enxerga as privatizações dentro do processo de implantação do real?
Cosentino
– A privatização de alguns setores, como o de telefonia, por exemplo,
contribuiu para a primeira fase da implantação, uma vez que diminuía os gastos
do governo. Serviços não essenciais, que não faziam parte dos pilares da
sociedade, representavam um peso no orçamento da união e, uma vez passando a
funcionar com investimento privado, deixavam de pesar nas contas públicas. O
governo passava então a ter mais lastro para investir no que era de primeira
necessidade.
SMN - Qual foi o setor mais beneficiado
pelas mudanças?
Cosentino
– primeiramente, o setor rural, muito afetado anteriormente pelas oscilações
dos mercados internacionais. Com as medidas de recuperação da economia interna
– e o congelamento da equivalência com o dólar – os produtos passaram a ser
mais competitivos e os mercados passaram a ser mais atrativos para
investimentos estrangeiros.
SMN – Após vinte anos da implantação da
moeda, o que temos visto é um governo trabalhando com índices inflacionários
bem próximos da meta por longos períodos, ao mesmo tempo as taxas tributárias
são bastante altas. Reduzir essas taxas pode ser uma solução para recuperar o
controle desses índices?
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Memórias chocantes do Pantera - Texto Integral
Livro de Rex Brown revela a impressionante trajetória de uma das bandas mais influentes e populares da história do heavy metal
“Chegamos. [...] nós vamos te destruir e, se você não tá a fim, cai fora”. Direto, como um soco no estômago bem ao estilo texano. É assim que Rex Brown – ex-baixista do Pantera – define a postura por traz do som e das letras de “Cowboys From Hell”, disco lançado em 1990, pela Atco Recordes, para muitos o responsável pela projeção inicial da banda.
A verdade é que, com essa frase, expressa nas páginas do
livro: “Verdade Oficial Nos Bastidores do Pantera” – escrito em parceria com
Mark Eglinton –, Rex faz muito mais do que isso, oferece ao leitor uma amostra
turbulenta do DNA de uma das bandas mais emblemáticas do metal. Sem concessões
e meias palavras, o que se tem nas 243 páginas da publicação é um relato
extremamente lúcido sobre como criar (e destruir) um gigante da música, forjado
a palhetadas frenéticas, drogas e sucessivas reinvenções do aço.
Nos primeiros capítulos, focados na infância e formação
musical de Rex Robert Brown, nascido em Grahan, Texas, em 1964 de relevante apenas
a perda do pai Bill – vitima de um câncer na cavidade nasal, uma doença
degenerativa da mãe, agravada pela perda do marido e o papel que a musica
assumiu diante de tais circunstâncias, oferecendo a força-motriz para o
enfrentamento dessa realidade e para moldar a própria personalidade. Surpreende
saber que o primeiro contato dele com a música se deu através de um coral de
igreja e que o disco responsável por “explodir” sua mente e expandir seus
horizontes musicais foi “With A Song In My Heart”, de Stevie Wonder, só depois
vieram The Beatles, ZZ Top, Led Zeppelin...
Na nona série, já em Arlington, dividiu a classe de álgebra
com aquele que se tornaria seu eterno antagonista. Vincent Paul Abbott era a
pólvora que constantemente desafiava as chamas de Rex mas, ao mesmo tempo, foi
quem abriu as portas do estúdio de Jerry Abbott (pai dos irmãos Abbott e
primeiro agente do Pantera) para as ambições do jovem instrumentista, que na
época tocava guitarra numa banda chamada Neck And The Brewheads. Embora
houvesse esses “projetos paralelos” era questão de tempo para que Rex fosse
apresentado a Darrell Lance “Dimebag” Abbott e o embrião do Pantera (na
formação que ganhou o mundo) estivesse formado.
Rex assumiu o baixo em 1982 para substituir Tommy Bradford,
em uma configuração que contava também com Terry Glaze nos vocais, levando um
som bem próximo do Glam Metal da época. Três discos independentes – com Jerry
Abbott como produtor – foram lançados seguindo essa linha: Metal Magic (1983),
Projects In The Jungle (1984) e I Am The Night (1985). Entre a agenda de shows
e pequenas turnês o baixista mantinha um emprego em uma cabine Fotomat de
revelação de filmes fotográficos onde aproveitava para vender pílulas de meta-anfetamina
para “clientes especiais”.
A entrada de Phillip Anselmo, em 1987, traz uma nova
dinâmica à banda que buscava diferenciar seu som tornando-o cada vez mais
pesado. O garoto encrenqueiro de Nova Orleans merece um capítulo inteiro no
livro, muito em virtude das novas referências musicais que incorporou no
Pantera, desde o punk ao cenário do trash que o Matallica e outras bandas
faziam na Bay Área. Com Glaze fora,
Phill imprime cada vez mais rebeldia ao som, refazendo inclusive alguns vocais
de canções anteriores e lançando Power Metal em 1998.
A partir desse ponto, Rex descreve uma engrenagem
perfeitamente alinhada, com Dimebag tirando riffs perfeitamente alinhados com
as linhas melódicas vocais de Phill, Vinnie trabalhando em uma técnica
crescente aliada aos conhecimentos de engenharia de som adquiridos no estúdio
de seu pai e Rex trazendo linhas de baixo que davam suporte ao “caos
controlado” que os define.
O grande trunfo do Pantera, no entanto, sempre esteve no
palco. E foi numa dessas apresentações – mais especificamente durante uma
guerra de bolo durante a festa de aniversario em que tocavam – que Mark Ross,
executivo da Atco Records, teve seu primeiro contato com a banda. Por seu
intermédio assinaram contrato e passaram a ser agenciados por Walter O’Brien,
com Terry Date como produtor.
“Cowboys From Hell” estreou na Billboards na 44º posição e
projetou o nome da banda, como já foi dito.. Mas foi quando “Vulgar Display of
Power” saiu em 1992 – o disco de maior sucesso – que teve início a espiral de
turnês intermináveis, problemas jurídicos de royalties com Jerry Abbott, abuso
crescente de álcool e drogas – principalmente da parte de Phill – gerando,
inevitavelmente, desgaste entre os membros.
Rex aponta no livro uma sucessão de eventos traumáticos que
nunca foram seriamente debatidos na banda e culminaram na cisão irreversível do
Pantera. A prisão de Anselmo após agredir um segurança em um show, a
dificuldade de convivência com Vinnie Paul e sua obsessão por sexo – agravada
pela abertura da própria casa noturna –, a postura de Dime, que se sentiu
traído diante da decisão tomada por Rex de trocar de ônibus durante a turnê do Far Beyond Driven – disco que
paradoxalmente estreou no topo das paradas americanas – além de uma overdose de
Phill em Dallas.
Mas o mais sintomático foi mesmo a mudança de foco com
relação às atividades com o Pantera, com os membros partindo para projetos como
o Down – comandado por Phill que rendeu três discos inclusive com a
participação de Rex –, Superjoint Ritual, DamagePlan. Todas essas turbulências
fizeram dos discos posteriores “The Great Southern Trendkill” e “Reinventing
the Steel” caça-níqueis para a indústria e gritos de sobrevivência para a
banda.
Todo esse panorama vicioso ofuscava grandes momentos com as
repetidas turnês com o Black Sabath e as participações como headliners no
OzzFest. A mídia fazia questão de expor ainda mais as fraturas e instigar
declarações desrespeitosas, até conseguir de Phill algo como “Dimebag e Vinnie
Paul deveriam levar uma surra...”, frase que, para muitos, ainda soa como
profética.
No livro, Rex admite que o dia 8 de dezembro de 2004 ainda ronda seus pensamentos todos os dias. Quando o jovem Nathan Gale disparou contra o palco durante um show do DamagePlan, em Columbus e atingiu letalmente Dimebag Darrell, encerrou a carreira do 92º melhor guitarrista de todos os tempos e, consequentemente, quaisquer chances de reconciliação entre o Pantera. Para polícia, uma bala que poderia estar endereçada para quaisquer membros da banda, para os remanescentes do grupo, um baque com cicatrizes profundas até hoje.
Texto originalmente publicado na Gazeta do Povo
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
... e de tal lacuna, nasceu o silêncio
Suspiram os espaços por entre os fonemas
Pois já não há pulsar no verbo
Caíram, dourados, deuses da palavra.
Pois já não há pulsar no verbo
Caíram, dourados, deuses da palavra.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Museu Oscar Niemeyer abriga “Frida – Suas Fotografias”
“Frida é minha
filha mais inteligente, é a que mais se parece comigo”. Essa elogiosa frase,
atribuída a Ghillermo Kahlo, é um dos registros instalados nas paredes do Museu
Oscar Niemeyer que contribuem mais fortemente para o tom intimista da exposição
“Frida – Suas Fotografias”, aberta à visitação até o dia 2 de novembro.
Mais do que apenas tomar conhecimento de fatos e imagens
históricas ligadas à Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, o
público mais atento têm a chance única de observar as linhas condutoras do
amadurecimento do olhar de uma das mais expressivas artistas plásticas de que
se tem notícia, capaz de desenvolver um estilo inconfundível de expressão, que
tem sua gênese calcada no ambiente familiar fecundo e propício às artes, e que
se delineia nas turbulências de um grave acidente, amores intensos – e plurais
– e fervorosa atuação política.
Nas 257 fotografias – selecionadas cuidadosamente de um
arquivo com cerca de 6.500 – é possível notar desde o fascínio do pai pelo
autorretrato (paixão herdada pela filha e expressa em várias de suas obras); o
apreço por diversas figuras familiares; a inspiradora Casa Azul; além da dor da
artista devido a um acidente de bonde, sua luta para seguir pintando mesmo em
processo de recuperação e, mais ainda, o modo como essa experiência traumática
marcou para sempre, e de forma profunda, sua produção artística.
Merece um capítulo à parte a sessão dedicada aos registros
relativos ao esposo Diego Rivera, também artista, com quem vivia um
relacionamento de constantes tensões e que inegavelmente contribuiu para o
afloramento de toda grande parte da carga emocional peculiar em seu niilismo. O
esposo muitas vezes representou vetor de força que mantinha a genialidade de
Frida efervescente, cujo comportamento reprovável impulsionava a pintora a
buscar novas emoções, que acabavam por povoar suas telas.
Tanto vigor – dos dois – talvez também possa se achar nas
causas do envolvimento político. A exposição também demonstra uma estreita
ligação deles com grandes nomes da esquerda mexicana e internacional da época.
Nomes como Emiliano Zapata figuram entre os retratados. Diego foi responsável pelo
registro interno das instalações de uma das fábricas Ford em seu sistema de
produção clássico, como forma de evidenciar condições de trabalho com as quais
não concordava.
Diante de tal pluralidade de estímulos visuais, o visitante
passa a filtrar sua visão do trabalho de Frida através também dessas
referências, de modo que a exposição acaba por desempenhar um papel de
evidenciar os moldes – se é que é possível falar em moldes – sob os quais se
estrutura a concepção criativa da pintora, ressaltando ainda mais a unicidade
de suas manifestações.
Serviço
Exposição “Frida – Suas Fotografias”
Museu Oscar Niemeyer – Rua Marechal Hermes, 999 – Centro.
Terça a domingo: 10h às 17h30 (com permanência até as 18h)
Ingressos entre R$ 6 e R$ 3
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