quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A construção da significação

Um olhar por sobre as lentes de Eduardo Baggio

23/10/2014 – Rico Boschi




Foto: Reprodução Facebook

Entre o “luz, câmera, ação” existe ainda um filtro muito mais criterioso. Dos recursos à disposição de um cineasta, o mais poderoso, diz o próprio entrevistado, é o repertório, que molda o olhar e que serve de norte para o processo de significação da mensagem. Doutor em Comunicação e semiótica pela Pontifícia Univercidade de São Paulo, Eduardo Baggio vem explorando as possibilidades audiovisuais mesmo antes da estreia no cinema propriamente dito.

Quando relembra os primeiros anos de carreira – como estagiário do curso de jornalismo – na função de editor de vídeo na Rede Manchete, ressalta que, antes do declínio da emissora, a carga de trabalho e as diferentes demandas o obrigaram a um amadurecimento forçado: “[...] a TV tinha na época o Manchete Repórter e pediam para que eu fosse ao interior fazer filmagens, eles perguntavam se eu tinha conhecimento e eu falava que sabia”, relata.

Na TV, adaptou-se rapidamente à edição, habilidade que se mostraria, mais tarde, fundamental para a construção da subjetividade de suas narrativas. Se tivermos como exemplo a obra “28 anos” – vencedora do Festival do Minuto – Baggio constrói a relação de similaridade entre ele e seu pai através de um recurso essencialmente de edição. O cineasta opta com colocar lado a lado fotografias em que os dois personagens constam de idades próximas, segundo o autor, cerca de três ou quatro anos de vida. A correlação com o tema do festival – mínima semelhança – fica a cargo do espectador. A trilha, uma gravação de pai e filho cantando uma canção infantil, reforça ainda mais essa similaridade.

Afeito ao cinema conceitual – mas sem diminuir a importância do caráter informativo do cinema – Eduardo Baggio mostra um domínio agudo das funções significantes na utilização da metáfora imagética. É o que se pode perceber no curta “Sonetos”, inspirado nas obras do poeta Avelino de Araújo. Com a utilização da imagem de um garfo ou arames farpados como índice[1] representante dos versos e estrofes na estruturação do poema, o cineasta representa mutuamente a identidade, o traço reconhecível e característico das obras-objetos da significação.

Interessante notar que, apesar da profundidade das relações entre semântica e metalinguística que as imagens cumprem dentro da narrativa, o conceito da obra é dotado de um alto grau de simplicidade, como nota o próprio Baggio ao afirmar: “Quando a ideia para o ‘Sonetos’ surgiu estávamos eu e um colega de equipe no restaurante da universidade e eu fui desenhando em guardanapos, quadro a quadro, como ficaria na tela”.

A percepção peculiar que marca os trabalhos acima também é traço indelével do longa Amadores do Futebol, que, ao invés de recorrer aos clichês que circundam o esporte, trata, antes, daqueles que o constroem e glorificam: torcedores, jogadores, comunicadores, familiares, apreciadores enfim, das pessoas. Através de personagens como as esposas dos esportistas – obviamente não profissionais – que os acompanham com o objetivo de vigiar os maridos, o diretor humaniza o universo futebolístico, aproximando-o do cotidiano do espectador e provocando empatia. Ao tratar da realidade que precede os grandes clubes, os valores milionários, a fama, o filme passa a revelar um amor desinteressado, genuíno do homem com a bola, evidenciando também o aspecto agregador do esporte: “[...] o filme tem uma temática mais popular, um apelo pela questão do futebol – embora eu não quisesse fazer um filme sobre futebol. O que me interessava eram as pessoas. O advogado joga com fulano que é de outra cabeça, de outro bairro...”. Novamente chegamos à questão da significação, que está por traz da dedicação, ou ainda mais, devoção, desses personagens ao esporte.

Em Traço Concreto, documentário dirigido em parceria com Danilo Pschera,  o foco é a arquitetura modernista. Nesse contexto, a significação se faz através de movimentos de câmera e enquadramentos para revelar os planos e dimensões arquitetônicas de três construções distintas. Ao mesmo tempo em que segue uma linearidade conceitual mostrando a elaboração do projeto de uma casa, a edificação de uma segunda e a demolição de uma terceira, traça-se também, semióticamente falando, a representação temporal dos períodos do movimento arquitetônico em que a obra cinematográfica está circunscrita.

Já em “Santa Teresa”, documentário que trata do passado do Hospital Santa Teresa que já funcionou como clínica de internação compulsória para enfermos atingidos pela Hanseníase, em uma época em que, devido à fragilidade dos tratamentos, acreditava-se que os portadores da doença deveriam ser privados do convívio social. Através de depoimentos mesclados com imagens capitadas in loco – com uma equipe de apenas três pessoas, Baggio sutilmente aponta o contraste entre a beleza natural das dependências da clínica com o prejuízo psicológico enfrentado pelos internos que, em muitos casos, mesmo possuindo o direito de sair após 30, 40, ou até 70 anos confinados na instituição, já não tem – ou nem puderam construir vínculo com o “mundo exterior”. O longa, que faz parte da tese de Eduardo em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, sobre o qual o diretor comenta: “[...] é um filme muito mais tradicional, a história é mais bem pontuada nas falas. O meu interesse é mais informacional, eu diria até bastante jornalístico, que é contar a história daquelas pessoas. Embora as passagens me agradem muito, eu nem me sentia livre para elaborar uma coisa mais poética diante daquelas histórias...”.

É através dessa multiplicidade de elementos e de referências que o artista constrói a sua linguagem e transcreve a sua visão para as obras que assina, fazendo com que a sua produção carregue uma espécie de marca – mesmo que inconsciente – de estilo e identificação. A significação passa, como já foi dito no início, pelos interpretante, ente que fecha a tríade semiótica defendida por Peirce, e é com base no repertório, que o filtro derradeiro do sentido consolida (ou inviabiliza) o entendimento. Sobre esse aspecto, o cineasta ressalta que: “existem elementos como enquadramento de câmera, movimentos, referências – como a estrutura do soneto, que existe desde o período elizabethano que comunicam e se o espectador não possuir o entendimento, pode não interagir com o filme”.



[1] Leia-se sob a ótica de Peirce, para quem o índice é um signo (representante) que guarda semelhança com seu objeto (representado) tendo-se como base a experiência vivenciada, neste caso, o conhecimento sobre a extrutura do soneto, obrigatoriamente dividida em dois quartetos e dois tercetos. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

20 anos do Plano Real – Entrevista Eduardo André Cosentino



O dia 1º de julho de 2014 marcou o vigésimo aniversário do plano econômico responsável pela instituição da moeda corrente no país: o Plano Real. Unanimidade, no entanto, entre analistas econômicos e sociedade é que esse plano foi responsável por transformações muito mais profundas. O conjunto de medidas idealizadas pela equipe do então Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso teve como principal demanda o controle dos efeitos nocivos do “Dragão” da inflação, que minava o poder aquisitivo do brasileiro, bem como a credibilidade do país junto a investidores estrangeiros.

Com um pico de taxa de 1703% alcançado em 1993, essa distorção da economia gerava ondas de supervalorização de preços de bens de consumo da noite para o dia, acompanhadas de uma corrida do consumidor às lojas para estocar bens de primeira necessidade. A especulação financeira passou a ser mais rentável do que a troca de bens de consumo no mercado interno, prejudicando diversos setores industriais chave do país, o que dificultava ainda mais a estabilização frente à flutuação excessiva do índice inflacionário.

Para compreender de que forma o Plano Real foi capaz de conter (e controlar) a escalada da inflação no país, o Sistema Muito Nervoso (SMN) conversou com o economista Eduardo André Cosentino – também consultor empresarial, administrador e especialista em Gestão de Assuntos Públicos – procurando traçar um panorama dos erros e acertos do referido pacote econômico, bem como mapear os desafios que enfrenta na tentativa de se manter forte por mais vinte anos:

SMN – Diante do panorama desfavorável observado na economia durante o governo Itamar Franco – época de implantação do Plano Real – como se deu a transição da moeda anterior para o novo valor monetário?

Cosentino – O plano de implantação foi dividido em três partes: em um primeiro momento, houve a fase de equilíbrio das contas públicas, alcançado através da redução da máquina estatal, de medidas que diminuíssem a circulação de papel moeda (limites de crédito) e incentivo ao mercado interno. A segunda etapa foi caracterizada pela adoção de uma “moeda virtual” – a unidade real de valor (URV) – com o papel de facilitar a conversão de valor entre o cruzeiro e o real – que durante um curto período de tempo estiveram simultaneamente no mercado, com a cotação da unidade referencial respeitando a equivalência de um para um em relação ao dólar. A terceira etapa, por sua vez, consistiu na adoção de medidas de controle dos preços que, como primeira reação, se elevaram. Também houve medidas como a criação de metas anuais de controle da inflação e da taxa Selic para regular a incidência de juros nas transações comerciais e a busca por equilíbrio na relação importação/exportação, desta vez também sujeitas às variações do livre comércio de mercados.

SMN – Essas novas dinâmicas de mercado tiveram como efeito fenômenos como a privatização de alguns serviços que antes estavam sob responsabilidade do Estado. Efeito esse muito criticado à época. Como você enxerga as privatizações dentro do processo de implantação do real?

Cosentino – A privatização de alguns setores, como o de telefonia, por exemplo, contribuiu para a primeira fase da implantação, uma vez que diminuía os gastos do governo. Serviços não essenciais, que não faziam parte dos pilares da sociedade, representavam um peso no orçamento da união e, uma vez passando a funcionar com investimento privado, deixavam de pesar nas contas públicas. O governo passava então a ter mais lastro para investir no que era de primeira necessidade.

SMN - Qual foi o setor mais beneficiado pelas mudanças?

Cosentino – primeiramente, o setor rural, muito afetado anteriormente pelas oscilações dos mercados internacionais. Com as medidas de recuperação da economia interna – e o congelamento da equivalência com o dólar – os produtos passaram a ser mais competitivos e os mercados passaram a ser mais atrativos para investimentos estrangeiros.

SMN – Após vinte anos da implantação da moeda, o que temos visto é um governo trabalhando com índices inflacionários bem próximos da meta por longos períodos, ao mesmo tempo as taxas tributárias são bastante altas. Reduzir essas taxas pode ser uma solução para recuperar o controle desses índices?

Cosentino – Ótima pergunta. Primeiro é preciso entender a que se deve essa nova alta. Por uma questão ideológica, o atual governo adota uma série de posturas (programas de transferência de renda, isenção de impostos na indústria automotiva) que aumentam o poder de compra do consumidor através do endividamento, sem, no entanto, representar um ganho real de riqueza e nem exigir algum tipo de contrapartida social. O que acontece é a inundação do mercado com o papel moeda que, como já foi visto, acarreta o aumento da inflação. Antes de pensar em redução tributária, o meu conselho seria a suspensão do imposto de renda, por exemplo, durante um determinado período, o que traria mais dinheiro vivo à mão do consumidor, o que evitaria a adesão do mesmo às compras parceladas, incidência de juros e, consequentemente, a inadimplência

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Memórias chocantes do Pantera - Texto Integral



Livro de Rex Brown revela a impres­sionante trajetória de uma das bandas mais influentes e populares da história do heavy metal

“Chegamos. [...] nós vamos te destruir e, se você não tá a fim, cai fora”. Direto, como um soco no estômago bem ao estilo texano. É assim que Rex Brown – ex-baixista do Pantera – define a postura por traz do som e das letras de “Cowboys From Hell”, disco lançado em 1990, pela Atco Recordes, para muitos o responsável pela projeção inicial da banda.

A verdade é que, com essa frase, expressa nas páginas do livro: “Verdade Oficial Nos Bastidores do Pantera” – escrito em parceria com Mark Eglinton –, Rex faz muito mais do que isso, oferece ao leitor uma amostra turbulenta do DNA de uma das bandas mais emblemáticas do metal. Sem concessões e meias palavras, o que se tem nas 243 páginas da publicação é um relato extremamente lúcido sobre como criar (e destruir) um gigante da música, forjado a palhetadas frenéticas, drogas e sucessivas reinvenções do aço.

Nos primeiros capítulos, focados na infância e formação musical de Rex Robert Brown, nascido em Grahan, Texas, em 1964 de relevante apenas a perda do pai Bill – vitima de um câncer na cavidade nasal, uma doença degenerativa da mãe, agravada pela perda do marido e o papel que a musica assumiu diante de tais circunstâncias, oferecendo a força-motriz para o enfrentamento dessa realidade e para moldar a própria personalidade. Surpreende saber que o primeiro contato dele com a música se deu através de um coral de igreja e que o disco responsável por “explodir” sua mente e expandir seus horizontes musicais foi “With A Song In My Heart”, de Stevie Wonder, só depois vieram The Beatles, ZZ Top, Led Zeppelin...

Na nona série, já em Arlington, dividiu a classe de álgebra com aquele que se tornaria seu eterno antagonista. Vincent Paul Abbott era a pólvora que constantemente desafiava as chamas de Rex mas, ao mesmo tempo, foi quem abriu as portas do estúdio de Jerry Abbott (pai dos irmãos Abbott e primeiro agente do Pantera) para as ambições do jovem instrumentista, que na época tocava guitarra numa banda chamada Neck And The Brewheads. Embora houvesse esses “projetos paralelos” era questão de tempo para que Rex fosse apresentado a Darrell Lance “Dimebag” Abbott e o embrião do Pantera (na formação que ganhou o mundo) estivesse formado.




Rex assumiu o baixo em 1982 para substituir Tommy Bradford, em uma configuração que contava também com Terry Glaze nos vocais, levando um som bem próximo do Glam Metal da época. Três discos independentes – com Jerry Abbott como produtor – foram lançados seguindo essa linha: Metal Magic (1983), Projects In The Jungle (1984) e I Am The Night (1985). Entre a agenda de shows e pequenas turnês o baixista mantinha um emprego em uma cabine Fotomat de revelação de filmes fotográficos onde aproveitava para vender pílulas de meta-anfetamina para “clientes especiais”.

A entrada de Phillip Anselmo, em 1987, traz uma nova dinâmica à banda que buscava diferenciar seu som tornando-o cada vez mais pesado. O garoto encrenqueiro de Nova Orleans merece um capítulo inteiro no livro, muito em virtude das novas referências musicais que incorporou no Pantera, desde o punk ao cenário do trash que o Matallica e outras bandas faziam na Bay Área. Com Glaze fora, Phill imprime cada vez mais rebeldia ao som, refazendo inclusive alguns vocais de canções anteriores e lançando Power Metal em 1998.

A partir desse ponto, Rex descreve uma engrenagem perfeitamente alinhada, com Dimebag tirando riffs perfeitamente alinhados com as linhas melódicas vocais de Phill, Vinnie trabalhando em uma técnica crescente aliada aos conhecimentos de engenharia de som adquiridos no estúdio de seu pai e Rex trazendo linhas de baixo que davam suporte ao “caos controlado” que os define.

O grande trunfo do Pantera, no entanto, sempre esteve no palco. E foi numa dessas apresentações – mais especificamente durante uma guerra de bolo durante a festa de aniversario em que tocavam – que Mark Ross, executivo da Atco Records, teve seu primeiro contato com a banda. Por seu intermédio assinaram contrato e passaram a ser agenciados por Walter O’Brien, com Terry Date como produtor.

“Cowboys From Hell” estreou na Billboards na 44º posição e projetou o nome da banda, como já foi dito.. Mas foi quando “Vulgar Display of Power” saiu em 1992 – o disco de maior sucesso – que teve início a espiral de turnês intermináveis, problemas jurídicos de royalties com Jerry Abbott, abuso crescente de álcool e drogas – principalmente da parte de Phill – gerando, inevitavelmente, desgaste entre os membros.

Rex aponta no livro uma sucessão de eventos traumáticos que nunca foram seriamente debatidos na banda e culminaram na cisão irreversível do Pantera. A prisão de Anselmo após agredir um segurança em um show, a dificuldade de convivência com Vinnie Paul e sua obsessão por sexo – agravada pela abertura da própria casa noturna –, a postura de Dime, que se sentiu traído diante da decisão tomada por Rex de trocar de ônibus durante a turnê do Far Beyond Driven – disco que paradoxalmente estreou no topo das paradas americanas – além de uma overdose de Phill em Dallas.

Mas o mais sintomático foi mesmo a mudança de foco com relação às atividades com o Pantera, com os membros partindo para projetos como o Down – comandado por Phill que rendeu três discos inclusive com a participação de Rex –, Superjoint Ritual, DamagePlan. Todas essas turbulências fizeram dos discos posteriores “The Great Southern Trendkill” e “Reinventing the Steel” caça-níqueis para a indústria e gritos de sobrevivência para a banda.

Todo esse panorama vicioso ofuscava grandes momentos com as repetidas turnês com o Black Sabath e as participações como headliners no OzzFest. A mídia fazia questão de expor ainda mais as fraturas e instigar declarações desrespeitosas, até conseguir de Phill algo como “Dimebag e Vinnie Paul deveriam levar uma surra...”, frase que, para muitos, ainda soa como profética.




No livro, Rex admite que o dia 8 de dezembro de 2004 ainda ronda seus pensamentos todos os dias. Quando o jovem Nathan Gale disparou contra o palco durante um show do DamagePlan, em Columbus e atingiu letalmente Dimebag Darrell, encerrou a carreira do 92º melhor guitarrista de todos os tempos e, consequentemente, quaisquer chances de reconciliação entre o Pantera. Para polícia, uma bala que poderia estar endereçada para quaisquer membros da banda, para os remanescentes do grupo, um baque com cicatrizes profundas até hoje.

Embora interrompida tragicamente a história do Pantera é digna do pantheon mais elevado dos deuses do metal. A banda vendeu cerca de 40 milhões de discos e conseguiu atravessar a era grunge praticamente sem nenhum arranhão na postura, diferente de bandas como o Metallica – que inclusive é citado no livro – que possuem álbuns bastante criticados pelas concessões a que se permitiram. “A verdade nos Bastidores do Pantera” conta a história de um sobrevivente do rock e, como existem poucos que merecem esse título, suas palavras merecem muito a leitura.

Texto originalmente publicado na Gazeta do Povo

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

... e de tal lacuna, nasceu o silêncio

Suspiram os espaços por entre os fonemas
Pois já não há pulsar no verbo
Caíram, dourados, deuses da palavra.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Museu Oscar Niemeyer abriga “Frida – Suas Fotografias”



“Frida é minha filha mais inteligente, é a que mais se parece comigo”. Essa elogiosa frase, atribuída a Ghillermo Kahlo, é um dos registros instalados nas paredes do Museu Oscar Niemeyer que contribuem mais fortemente para o tom intimista da exposição “Frida – Suas Fotografias”, aberta à visitação até o dia 2 de novembro.

Mais do que apenas tomar conhecimento de fatos e imagens históricas ligadas à Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, o público mais atento têm a chance única de observar as linhas condutoras do amadurecimento do olhar de uma das mais expressivas artistas plásticas de que se tem notícia, capaz de desenvolver um estilo inconfundível de expressão, que tem sua gênese calcada no ambiente familiar fecundo e propício às artes, e que se delineia nas turbulências de um grave acidente, amores intensos – e plurais – e fervorosa atuação política.

Nas 257 fotografias – selecionadas cuidadosamente de um arquivo com cerca de 6.500 – é possível notar desde o fascínio do pai pelo autorretrato (paixão herdada pela filha e expressa em várias de suas obras); o apreço por diversas figuras familiares; a inspiradora Casa Azul; além da dor da artista devido a um acidente de bonde, sua luta para seguir pintando mesmo em processo de recuperação e, mais ainda, o modo como essa experiência traumática marcou para sempre, e de forma profunda, sua produção artística.

Merece um capítulo à parte a sessão dedicada aos registros relativos ao esposo Diego Rivera, também artista, com quem vivia um relacionamento de constantes tensões e que inegavelmente contribuiu para o afloramento de toda grande parte da carga emocional peculiar em seu niilismo. O esposo muitas vezes representou vetor de força que mantinha a genialidade de Frida efervescente, cujo comportamento reprovável impulsionava a pintora a buscar novas emoções, que acabavam por povoar suas telas.

Tanto vigor – dos dois – talvez também possa se achar nas causas do envolvimento político. A exposição também demonstra uma estreita ligação deles com grandes nomes da esquerda mexicana e internacional da época. Nomes como Emiliano Zapata figuram entre os retratados. Diego foi responsável pelo registro interno das instalações de uma das fábricas Ford em seu sistema de produção clássico, como forma de evidenciar condições de trabalho com as quais não concordava.

Diante de tal pluralidade de estímulos visuais, o visitante passa a filtrar sua visão do trabalho de Frida através também dessas referências, de modo que a exposição acaba por desempenhar um papel de evidenciar os moldes – se é que é possível falar em moldes – sob os quais se estrutura a concepção criativa da pintora, ressaltando ainda mais a unicidade de suas manifestações.

Serviço
Exposição “Frida – Suas Fotografias”
Museu Oscar Niemeyer – Rua Marechal Hermes, 999 – Centro.
Terça a domingo: 10h às 17h30 (com permanência até as 18h)

Ingressos entre R$ 6 e R$ 3

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Empreendimento imobiliário oferece riscos à Bacia do Rio Tibagi

Matéria originalmente publicada no site do Partido Verde 43


No município de Irati, no Estado do Paraná, um dos últimos remanescentes florestais da região está ameaçado de ser substituído por um loteamento. O projeto, de responsabilidade da empresa Aurora Centennial S/A, prevê a demarcação de 150 lotes na primeira fase, seguidos de outros 50 em uma etapa posterior.

Com licenças de desmate já concedidas pelo IAP – de forma questionável, é preciso que se diga –, essa área (conhecida como Mata do Arroio dos Pereira, ou, mais popularmente, Mata do Gomes) possui aproximadamente 13 hectares, localizada em uma encosta e no fundo do vale está o Arroio dos Pereira, afluente do Rio das Antas, que compõe a Bacia do Rio Tibagi.

A despeito de qualquer argumento econômico de que se possa lançar mão para justificar o empreendimento, é necessário ter em mente que há benefícios incalculáveis ao se manter intacta uma área como essa. É o caso da qualidade dos recursos hídricos, conservação do solo, polinização, amenização de efeitos de intempéries, regulação climáticas, controle de enchentes, entre outros. Sabemos que as interações entre os fatores bióticos e abióticos de um determinado ecossistema formam uma complexa e dinâmica rede de funcionamento da natureza que resulta nos serviços ecossistêmicos. Basicamente, os serviços ecossistêmicos são os benefícios provenientes da natureza e usufruídos pelo ser humano e essenciais à sua sobrevivência.

Com isso em mente, um amplo grupo de cidadãos do município – organizados sob a chancela do movimento Preserva Irati – entende que este remanescente é estratégico para a vida na cidade – inclusive tendo em vista as enchentes terríveis que o município tem enfrentado – e pretende discutir melhor as possibilidades de redirecionamento do pretendido empreendimento. Cabe salientar que o atual prefeito constou de seu programa de Governo de transformar a área em questão num parque (horto) municipal, o que corrobora com a intenção deste movimento local.

Em função de este tema estar sendo ainda discutido, as licenças de desmate concedidas pelo IAP foram sustadas até a data de 28 de julho deste ano. Sem resultados concretos, agora o corte da vegetação pode acontecer à revelia das negociações em curso – inclusive dispensando a conclusão de um inquérito para apurar desmate ilegal. O caso da Mata do Arroio dos Pereiras é um de inúmeros outros casos semelhantes. Mas se a humanidade, com toda sua inteligência e raciocínio privilegiado, inventou cada vez ferramentas mais aguçadas que objetivam o bem viver, porque lidamos diariamente com casos como este? Proteção à natureza comprovada cientificamente e garantida pela legislação e o desmate ocorre travestido de desenvolvimento. Pouco importa o discurso, inclusive, discursos demagogicamente diferentes: sabemos e não é de hoje que é imperativa a proteção aos recursos naturais principalmente em ambientes urbanos.

Bianca de Genaro Blanco é bióloga e integrou a equipe de campo responsável pela vistoria ambiental no local.

Enrico Boschi é membro da juventude do Partido Verde, militante e conservacionista.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Os sabores da Catalunha no mosaico gastronômico curitibano



11/07 - Rico Boschi

Curitiba tem vocação para acolher. E no mosaico curitibano também há lugar para as cores e sabores da Catalunha. Inspirado na cultura da região situada a Nordeste da península Ibérica – uma unidade autônoma dentro do território da Espanha – o La Rauxa Cafè i Bistrot é um café que harmoniza o caráter vibrante do povo catalão, com a suavidade e refinamento característico do curitibano.

O cardápio – que resgata o idioma catalão – é concebido de modo a permitir a degustação de um extenso blend de cafés (desde o tradicional expresso, cafés gelados, com sorvetes, variedades alcoólicas e até mesmo opções mais elaboradas como o Cafè Caramel, que leva calda de caramelo e leite cremoso), além de chocolates quentes, porções – destaque para a típica Pa Amb Tomàquet (pão com tomate) –, petit salgados, crepes (salgados e doces), saladas e sanduíches. Conta ainda com almoço, com 13 opções a la carte desenvolvidas por Angela Muraro – chefe de cozinha e sócia do empreendimento juntamente com outros dois irmãos –, durante estadia na região.

A arte, tão pulsante na Catalunha – representada por nomes como os pintores surrealistas Salvador Dalí e Joan Miró – também tem seu espaço no La Rouxa que, esporadicamente recebe exposições de diversas formas de manifestação artística que vão desde a pintura à fotografia. Atualmente está em cartaz a exposição “Patagônia – Argentina”, que reúne obras do fotógrafo curitibano Fernando Nobre, recortes das paisagens nevadas do entremeio dessas regiões.

Pode-se notar, por esses e outros detalhes, o cuidado em oferecer um serviço que supera as expectativas dos clientes, contrastando, inclusive, o frio da capital paranaense com o caloroso gesto de recepcioná-los à porta. Para quem gostou da dica, volte sempre e, se quiser, apareça em dia de jogo do Barça.

Matéria originalmente publicada no Guia Gazeta do Povo